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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Ano Novo judaico é época de reflexão e arrependimento

Ano 5.769 do calendário judaico começa nesta segunda-feira. Para os judeus, é a época de 'acertar as contas' com o próximo.

Paula Adamo Idoeta
Do G1, em São Paulo, em 29/09/2008
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É dia de dizer Shana Tová, ou “bom ano”. Segundo o calendário judaico, entramos nesta segunda-feira (29) no ano 5.769. Para os judeus, é tempo de refletir e se arrepender dos pecados.

“Na festa de Réveillon, geralmente se entra no ano novo com os pés, dançando e comemorando. No Rosh Hashaná (Ano Novo judaico, que comemora o dia em que Deus criou o mundo), entramos com a cabeça, ou seja, pensando”, compara Sergio Feldman, professor de História Antiga e Medieval da Universidade Federal do Espírito Santo, em entrevista ao G1.

Portanto, em vez de pular sete ondinhas e brindar com champanhe, a comemoração do Rosh Hashaná é mais focada na introspecção e na reflexão. E cai na entrada do outono (no hemisfério norte) porque, segundo Feldman, “é o momento de encerrar as colheitas e prestar contas”. Os dez dias entre o Ano Novo e o Yom Kipur (Dia do Perdão) servem justamente para que cada um pondere suas ações. E o jejum, praticado neste dia, ajuda a elevar o espírito.

Veja a galeria de fotos das comemorações do Ano Novo Judaico

No Rosh Hashaná, é preciso ter em vista três princípios: Tefilá (oração), Tsedaká (justiça e ajuste com o próximo) e Teshuvá (arrependimento sincero).

“É uma nova oportunidade para viver de acordo com a ética judaica e para o arrependimento sincero dos pecados”, diz ao G1 Paulo Geiger, consultor do Centro de História e Cultura Judaica, destacando um detalhe importante: “a declaração de arrependimento deve ser feita ao próximo, e não a Deus. Porque Deus é magnânimo. A época é de ajuste do comportamento com os demais”.

Lunar
A contagem dos anos no judaísmo é feita pelo calendário lunar, daí a discrepância com o calendário gregoriano. O ano lunar tem 354 dias, portanto faltam 11 para os 365 contados normalmente. Para ajustar, se convencionou que alguns anos têm um mês a mais no calendário judaico. “É uma questão de convenção”, explica Geiger. “Houve muitos calendários, e o dos judeus é anterior ao utilizado hoje. E o último algarismo do ano (no caso, 9) é sempre igual ao último algarismo do ano em que vamos entrar (2009)”.

O primeiro mês do ano é chamado de Tishrei, palavra que remonta ao período de 586 a.C. a 536 a.C., quando Jerusalém foi destruída pelos babilônios e os judeus foram forçadamente exilados para a região mesopotâmia. Ali eles desenvolveram o calendário de 12 meses – que às vezes ganha um mês extra para o ajuste com o calendário tradicional.

Abrir os céus
Um dos símbolos mais importantes do Rosh Hashaná é o shofar, instrumento feito de chifre de carneiro que é tocado na data e remonta à época em que os judeus eram nômades. Segundo Geiger, o som do shofar “carrega boas intenções e abre os céus para que as preces entrem.”
Um conto judaico diz que, certa vez, havia um menino muito pobre que, tentando imitar o som do shofar, assobiou para Deus. “No conto, o céu se abriu ao assobio do menino. Porque era um pedido sincero, que comoveu Deus”, explica o especialista.

Veja mais:
Mini-Guia de Rosh Hashaná 5769
Shaná Tová 5769!!! Shaná Tová Umetuká!!!
Unetane Tokef (vídeo)
Rosh Hashaná (Beit Chabad Brasil)
Rosh_hashaná (Agência Judaica)
Kidush para Rosh Hashaná (Revista Morashá)
Mini-Guia Iamim Noraim (CJB)

domingo, 28 de setembro de 2008

Tirando os sapatos: Os Caminhos de Abrahão e o Meu Fundamentalismo

TIRANDO OS SAPATOS
Os Caminhos de Abrahão e o Meu Fundamentalismo
Rabino Nilton Bonder


O livro relata uma viagem que o rabino fez por duas semanas, em 2006, pelo chamado "caminho de Abraão", no Oriente Médio. A experiência foi contada em forma de diário, apresentado por meio de uma entrevista realizada pela jornalista Tania Menai e de textos filosóficos de autoria do próprio rabino. Bonder aborda a importância dos caminhos, como o de Santiago de Compostela, como um resgate de uma prática milenar de peregrinação. E isso significa mais do que se deslocar de um lugar para outro - significa sair da própria cultura. O peregrino inicia a jornada com uma visão de mundo, com uma perspectiva, e aos poucos vai se desfazendo de sua bagagem, sendo profundamente transformado.

15 de outubro (4ª feira)
19:00hLivraria da Travessa Leblon
shopping Leblon - Av. Afrânio de Melo Franco, 290 lj 205


quinta-feira, 25 de setembro de 2008

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O êxodo dos hebreus segundo historiadores e arqueólogos: ênfase na perspectiva minimalista a partir da obra de Finkelstein e Silberman

História em Reflexão. Revista Eletrônica de História.
Vol. 1 N. 3 Jan/Jun 2008ISSN 1981-2434
RESUMO
Distintas correntes interpretativas analisaram e continuam a analisar a história do Israel antigo, e, ao que tudo indica, o consenso parece distante. Neste presente artigo tentar-se-á contemplar um determinado grupo de pesquisadores, a saber: os minimalistas. O evento bíblico do êxodo constitui-se no objeto do presente estudo. O conteúdo majoritário dessa pesquisa reside em analisar como o êxodo foi interpretado por historiadores e arqueólogos, entretanto, será dada uma ênfase na perspectiva dos estudiosos minimalistas, sobretudo, em Israel Finkelstein e Neil Silberman autores da obra “The Bible Unearthed: Archaeology’s New Vision of Ancient Israel and the Origin of Its Sacred Texts”.
PALAVRAS-CHAVE: História dos Hebreus, Êxodo, Minimalistas

Bíblia: Livro e Leitura

Extraído de: CHARTIER, Roger. O Leitor – entre limitações e liberdade. IN: ---. A aventura do livro: do leitor ao navegador. Trad.Reginaldo de Moraes. São Paulo: UNESP/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1999. (Prismas). p.88-92.

- Para voltar à questão que atravessa toda esta nossa conversa, a transformação da leitura pelo suporte que a materializa, você deve concordar que está provavelmente ameaçada a lectio divina, tal como a praticam as velhas mulheres de Rembrandt, munidas de óculos diante de seus in-fólio.
Desde a época de Rembrandt, coloca-se a questão se a Bíblia podia ser publicada em pequeno formato. A sacralização do texto, dizia-se, não podia resistir à indignidade do pequeno formato. Ela de fato resistiu à passagem do rolo ao códex, ao abandono do in-fólio e, sem dúvida, resistirá à passagem para o texto eletrônico.

- A bíblia em CD-Rom, que se começa a comercializar na França, é algo diferente de uma espécie de história sagrada lúdica, imprópria a toda postura meditativa?
O novo suporte do texto permite usos, manuseios e intervenções do leitor infinitamente mais numerosos e mais livres do que qualquer uma das formas antigas do livro. No livro em rolo, como no códex, é certo, o leitor pode intervir. Sempre lhe é possível insinuar sua escrita nos espaços deixados em branco, mas permanece uma clara divisão, que se marca tanto no rolo antigo como no códex medieval e moderno, entre a autoridade do texto, oferecido pela cópia manuscrita ou pela composição tipográfica, e as intervenções do leitor, necessariamente indicadas nas margens, como um lugar periférico com relação à autoridade. Sabe-se muito bem – e você sublinhou os usos lúdicos do texto eletrônico – que isto não é mais verdadeiro. O leitor não é mais constrangido a intervir na margem, no sentido literal ou no sentido figurado. Ele pode intervir no coração, no centro. Que resta então da definição do sagrado, que supunha uma autoridade impondo uma atitude de reverência, de obediência ou de meditação, quando o suporte material confunde a distinção entre o autor e o leitor, entre a autoridade e a apropriação? Eu não sei se uma reflexão teológica se desenvolveu no mundo do texto eletrônico, mas ela seria absolutamente apaixonante, ao lado de uma reflexão filosófica ou de uma reflexão jurídica.

- Sem dúvida, ela mostraria que se pode distinguir uma abordagem católica ou luterana de uma abordagem calvinista. É assim: conforme as tradições religiosas, mas também conforme as tradições intelectuais ou as pertinências sociais, desenvolve-se uma multiplicidade de abordagens da leitura. Até o infinito?
Até o infinito, não. Ler, leitura, essas palavras armam ciladas. Existe algo mais universal? Há leitores em Roma, na Mesopotâmia, no século XX. É uma invariante, sempre se leu ou nunca se leu o suficiente, isto depende do ponto de vista. Aliás, como você diz com justeza, há esta multiplicidade de modelos, de práticas, de competências, portanto há uma tensão. Mas ela não cria dispersão ao infinito, na medida em que as experiências individuais são sempre inscritas no interior de modelos e de normas compartilhadas. Cada leitor, para cada uma de suas leituras, em cada circunstância, é singular. Mas esta singularidade é ela própria atravessada por aquilo que faz que este leitor seja semelhante a todos aqueles que pertencem à mesma comunidade. O que muda é que o recorte dessas comunidades, segundo os períodos, não é regido pelos mesmos princípios. Na época das reformas religiosas, a diversidade das comunidades de leitores é em ampla medida organizada a partir da pertinência confessional. No mundo do século XIX ou XX, a fragmentação resulta das divisões entre as classes, dos processos diferentes de aprendizagem, das escolaridades mais ou menos longas, do domínio mais ou menos seguro da cultura escrita. Poder-se-ia também evocar o contraste que se revelou, no século XVIII, entre os leitores de um tipo antigo, que reliam mais do que liam, e leitores modernos, que agarravam com avidez as novidades, novos gêneros, novos objetos impressos – o periódico, o libelo, o panfleto. A clivagem, aqui, remete a uma oposição entre cidade e campo, ou entre gerações.
O que se deve notar, e que é difícil para os historiadores e sociólogos, é o princípio de organização da diferenciação. Não há invariância ou estabilidade deste princípio. O que torna pensável um projeto de história da ou das leituras, que não caísse numa espécie de coleção indefinida de singularidades irredutíveis, é a existência de técnicas ou de modelos de leitura que organizam as práticas de certas comunidades: a dos místicos, a dos mestres da escolástica da idade Média, a de determinada classe social do século XIX etc.

- Os membros dessas comunidades, supondo que possamos identificá-los, imitam, pelo fato de terem sido beneficiados por uma aprendizagem, o comportamento da geração procedente, dos pais, ou pais eletivos. Aquilo que é radicalmente novo, com a revolução eletrônica atual, é que não há processo de aprendizagem transmissível de nossa geração à geração dos novos leitores.
É por isso que esta revolução, fundada sobre uma ruptura da continuidade e sobre a necessidade de aprendizagens radicalmente novas, e portanto de um distanciamento com relação aos hábitos, tem muito poucos precedentes tão violentos na longa história da cultura escrita.
A comparação com duas rupturas menos brutais faz sentido. No início da era cristã, os leitores do códex tiveram que se desligar da tradição do livro em rolo. Isso não fora fácil, sem dúvida. A transição foi igualmente difícil, em toda uma parte da Europa do século XVIII, quando foi necessário adaptar-se a uma circulação muito mais efervescente e efêmera do impresso. Esses leitores defrontavam-se com um objeto novo, que lhes permitia novos pensamentos, mas que, ao mesmo tempo, supunha o domínio de uma forma imprevista, implicando técnicas de escrita ou de leitura inéditas.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Hebraico Mishnaico / Hebraico Falado

Hebraico Mishnaico / Hebraico Falado
Cláudia Andréa Prata Ferreira / UFRJ (2002-2008)


A Mishná foi redigida num hebraico claro e compreensível, o hebraico falado, que recebeu o nome de hebraico mishnaico. Na época, ele foi provavelmente chamado de a Língua dos Sábios em oposição à língua da Torá, o chamado hebraico bíblico. Os referidos sábios eram os eruditos fariseus, os mestres da Orientação Oral (Torá Shebealpe). Atualmente, os denominamos de Chazal, abreviatura para a expressão hebraica Chahameinu Zichronam Livrachá “Nossos sábios de abençoada memória”.

Veja mais:
Hebraico Mishnaico / Língua dos Sábios

A Carta de Aristéias

A Carta de Aristéias[1]

Breve comentário: A Carta de Aristéias, narra a história da versão grega da Torá. De acordo com esse escrito, Ptolomeu II, fundador da Biblioteca de Alexandria, teria encomendado a tradução da Torá ao Sumo Sacerdote de Jerusalém, o qual lhe enviou 72 escribas e um rolo da Torá. A tradução recebeu o nome de Versão dos Setenta, em grego a Septuaginta.

"Quando Ptolomeu, o rei do Egito, soube que os judeus possuíam uma excelente Lei, resolveu providenciar a sua tradução para o grego, e endereçou ao Sumo Sacerdote em Jerusalém, a seguinte missiva:

'De Ptolomeu, rei do Egito, a Eleazar, o Sumo Sacerdote, paz! Segundo me informaram, os judeus dispõem, de uma excelente Lei. Solicito-te, pois, o envio de setenta de teus sábios entendidos na Torá, a fim de que ma traduzam para a língua grega. Em agradecimento à tua cordial acolhida, queira aceitar as dádivas que te remeto por intermédio de meu servo Aristeas'.

O Sumo Sacerdote, ao receber a carta e os presentes de Aristeas, rejubilou-se extraordinariamente e disse-lhe: 'Peço-te permanecer aqui por setenta dias, enquanto escolho os setenta sábios que devem te acompanhar ao Egito'.

(...) Ptolomeu observou a Torá com admiração e respeito. Em seguida, abençoou os setenta sábios e também o Sumo Sacerdote, e curvou-se setenta vezes perante os mesmos. Depois, pediu aos sábios que se sentassem e, tomando a mão de cada um, declarou: 'Hoje é o dia mais feliz de minha vida. Jamais hei de esquecê-lo!'

Ele ordenou o preparo de um magnífico banquete e convidou todos os príncipes e grandes homens de seu reino. Então, o rei fez perguntas aos sábios judeus, a fim de experimentar-lhes a sabedoria. Dentre as questões formuladas e as respostas recebidas, figuravam as seguintes:

- Quando será bem sucedido o governo de um rei?
- Quando o mesmo serve a Deus, recompensa o bom e castiga o perverso.

- Como pode um homem aumentar os seus bens?

- Dando aos pobres.

- Como deve um soberano punir os seus caluniadores?
- Mostrando-lhes misericórdia e paciência.

- Como pode um monarca vencer os seus inimigos?
- Lutando pela paz, fiando-se sempre em Deus e não no exército.

- Como pode um soberano intimidar o coração de seus adversários?

- Mantendo o seu exército sempre pronto, mas usando com discrição.

- Como deve um homem se comportar na adversidade?

- Deve rezar a Deus e confiar em sua ajuda. Precisa também lembrar-se que na face da terra não há criatura humana que não se deparasse alguma vez, com a adversidade.

- Quando revelamos a nossa verdadeira força de caráter?
- Na desdita.

[1] Trecho da Carta de Aristéias. Apud: IUSIM, Henrique. Uma visão panorâmica da história do judaísmo clássico em perguntas e respostas. Rio de Janeiro: Biblos, 1966. p.46-48.

domingo, 21 de setembro de 2008

Hebraico Mishnaico / Língua dos Sábios

Hebraico Mishnaico

Cláudia Andréa Prata Ferreira / UFRJ (2002-2008)


Os rabinos surgem como intérpretes do texto bíblico e, por extensão, como explicadores e comentaristas, orientando o povo sobre o sentido do texto e sua aplicação à vida diária.

Ao redor desses “mestres” (rabinos) reuniam-se estudantes de todas as idades em centros de estudo e debate, para “empreenderem leituras sistemáticas com interpretação do texto e para atenderem aos problemas concretos que a vida apresentava”
[1].

Havia uma regra absoluta estabelecida nesses encontros: nada do que fosse discutido deveria ser anotado por escrito, tudo deveria ser confiado à transmissão oral, assim passando do mestre aos alunos, de geração em geração. O motivo dessa regra era a crença de que só podia haver uma orientação escrita (Torá Shebik’tav), a de Moisés. Tudo o que resultou dos debates estabelecidos entre os rabinos tinha que ficar restrito à forma oral.
[2]

Cabe ressaltar que o hebraico utilizado nesses debates não era o hebraico bíblico, então como referência da norma culta e sim, sua forma falada, popular. Era nessa forma que os sábios sabiam se expressar livremente e só esta era entendida por todo o povo. Não obstante, isso não foi suficiente para transformar a língua falada em língua literária, uma vez que eram proibidas as anotações da orientação oral. Se tais anotações existiam estas eram de uso individual. Contudo, a intensa atividade dos debates e exegese desenvolveu rapidamente a capacidade de expressão da língua falada, e habituou as pessoas a formular neste registro lingüístico idéias que anteriormente se restringiam à língua escrita (hebraico bíblico). Outro fator que contribui para o aumento da importância da linguagem falada nos assuntos espirituais foi a polêmica com um outro movimento popular, a seita do Mar Morto ou do Deserto de Judá. Conforme atestam as fontes denominadas de Rolos do Mar Morto, esse grupo usou como registro em sua produção textual o hebraico bíblico, não obstante o rolo de cobre, encontrado numa das cavernas da região ter sido inteiramente escrito na linguagem falada, o que comprova que era de conhecimento esse tipo de registro lingüístico por seus autores. Na produção literária desse grupo, encontramos seus autores repreendendo os fariseus, porque estes usavam uma linguagem que era considerada deselegante e não estando à altura dos conteúdos sagrados.

Provavelmente, era de conhecimento dos autores dos pergaminhos do Mar Morto que um dos fatores para a escolha da linguagem falada para o ensino pelos fariseus, devia-se ao desejo destes de afastar o povo de tudo que provinha daquela seita. Os fariseus também proibiram a leitura dos livros apócrifos, muitos dos quais expressavam opiniões condizentes com o seu pensamento, mas por sua vez, eram escritos em linguagem bíblica e davam ensejo ao aparecimento de complementações à orientação escrita (Torá Shebik’tav).

O uso da linguagem falada não só facilitou ao povo a compreensão dos ensinamentos dos fariseus, mas também marcou de forma inconfundível e imediata uma separação entre os seus escritos e os escritos heréticos, e ao mesmo tempo evitou o risco de que as pessoas identificassem o que escutavam com a orientação escrita (Torá Shebik’tav).
[3]

[1] LEMLE, Henrique.Introdução. IN: KELER, Theodore M.R. (seleção). A essência do Talmud. Trad. Paulo Rónai. /São Paulo/: Ediouro, s.d. p.10.
[2] Ibidem, p.10.
[3] Ver os trabalhos de BEREZIN, Rifka. As origens do léxico do hebraico moderno. São Paulo: EDUSP, 1980. e de RABIN, Chaim. Pequena história da língua hebraica. Trad. Rifka Berezin. São Paulo: Summus, s.d.

O conceito de Terra Prometida e os conflitos atuais

Exegese Bíblica na Tradição Judaica

Exegese Bíblica na Tradição Judaica

Profa Dra Cláudia Andréa Prata Ferreira
FL/UFRJ e PPGHC-IFCS/UFRJ
Versão em 21/09/2008


Texto Hebraico Bíblico
Na Tradição Judaica:
a Bíblia Hebraica (Antigo Testamento/Primeiro Testamento) é conhecida pelo termo Tanach, composto pela Torá (Pentateuco), Neviim (Profetas) e Ketuvim (Escritos).

O conjunto do Tanach tornou-se a parte central da Tradição Escrita, Torá Shebik’tav.

► A leitura da Torá (Pentateuco) é realizada normalmente nas segundas, quintas e sábados. Este costume é uma forma de liturgia que data desde os tempos do retorno dos judeus do exílio babilônico no século VI a.E.C. A leitura também é parte do sistema integrado na liturgia de oração e estudo.

► A Torá é dividida em cinqüenta e quatro partes chamadas de Parashá ("sessão"), no plural Parashiot. Deste modo, a cada semana é lida uma Parashá e ao final de um ano, a leitura é concluída e reiniciada ano a após ano sucessivamente. A leitura da Parashá se inicia sábado à tarde, tem sua continuação às segundas e quintas e continuação, seguida de conclusão, sábado de manhã.

► O sentido literal de Haftará é "conclusão" e refere-se à leitura de trechos selecionados dos livros dos Profetas. Encontramos duas explicações para a leitura da Haftará: primeiramente, a leitura se deve à intenção de preservar este material na memória do povo. A outra explicação associa o uso da leitura da Haftará com o período de proibição do estudo da Torá por Antíoco IV, no século II a.E.C. Neste contexto, a Haftará seria uma substituta à leitura em que os trechos escolhidos teriam um conteúdo correspondente ao da leitura prescrita (Torá). Com o fim da proibição, manteve-se o costume da leitura da Haftará. A Haftará é relacionada ao tema da leitura da Torá, permitindo uma compreensão mais profunda da leitura desta e dos dias festivos.

Orientação Oral – 1
A Orientação Oral era em grande escala derivada do Tanach (Bíblia Hebraica) e qualquer preceito particular podia, em princípio, ser ensinado através de qualquer um dos métodos: como interpretação do texto-documento (Tanach) ou como uma tradição independente.

Orientação Oral – 2
A interpretação das Escrituras tornou-se conhecida como Midrash “interpretação”, termo derivado de um verbo hebraico que significa “buscar, investigar, procurar saber”.

Midrashim
Os Midrashim tiveram sua origem nas palestras e homilias populares realizadas na sinagoga, no Beit HaMidrash ou na Academia Talmúdica.

Literatura Rabínica - 1
A literatura rabínica pode ser classificada basicamente de:
1) de acordo com o gênero:
método Midrash e método Mishná
2) de acordo com o objeto do texto: Halachá ou Hagadá

Literatura Rabínica – 2
A literatura rabínica pode ser classificada segundo a origem cronológica:

► período dos tanaim (70-200 E.C.) e seus predecessores
Local:
Terra de Israel
Idioma: hebraico
e o
► período dos amoraim (200-500 E.C.)
Local:
pode ser da Terra de Israel ou Babilônia
Idioma: aramaico.


Ilustração: Modelo de uma página talmúdica.

Bíblia que gera a Bíblia - 1
A atividade rabínica de interpretar o texto bíblico e criar uma hermenêutica elaborada tem como fonte de inspiração a própria fonte bíblica.

O sentido de Midrash como um processo de “interpretação e exposição” já estaria presente na própria Bíblia (Hebraica) numa espécie de processo de Bíblia que gera Bíblia (TREBOLLE BARRERA, 1995:513-520).

Bíblia que gera a Bíblia – 2
A Bíblia é ela própria um texto interpretado: os profetas interpretam a Torá (Pentateuco) + fonte de toda uma tradição de interpretação (a fonte talmúdica).

De acordo com essa perspectiva, a Bíblia é o substrato de um longo processo exegético no qual os livros do corpus bíblico interpretam-se uns aos outros e que a Bíblia é a primeira intérprete de si mesma.

Bíblia que gera a Bíblia – 3
Destacamos o papel dos profetas na atualização e interpretação das tradições de Israel.

Podemos observar como o profeta Jeremias usa a legislação do divórcio para contrastar a relação entre Deus e o povo (Ver Jeremias 3,1 releitura de Deuteronômio 24,1-4).

Bíblia que gera a Bíblia – 4
Em outros casos, encontramos narrativas inteiras que reelaboram e adaptam narrativas anteriores.

Em Ezequiel 16, podemos encontrar a reutilização midráshica de antigos materiais da história de Israel (v. Ezequiel 16,17-19 releitura de Êxodo 32,2-4).

Bíblia que gera a Bíblia – 5
Em outros casos, encontramos narrativas inteiras que reelaboram e adaptam narrativas anteriores.

O livro de Crônicas é uma reescrita dos livros de Samuel e dos Reis, com pontos de vista diferentes.

Hermenêutica Rabínica – 1
A hermenêutica rabínica que fundamentalmente é o comentário da Bíblia e posteriormente, o comentário do comentário, dessa forma, dá continuidade a esse processo interpretativo que já estaria presente na Bíblia.

Hermenêutica Rabínica – 2
A interpretação na tradição judaica é caracteristicamente um intenso processo de procura do sentido da palavra divina e uma forma de perpetuar a memória dessa relação entre Deus e Israel através dos tempos.

A sinagoga como Biblioteca Pública
Na Idade Média, a sinagoga além de local de oração, desempenhava as funções de centro social e, entre outras coisas, de biblioteca pública. A leitura é um dever religioso de estudo individual ou em grupo.

Na virada do século XI - Rabino Guershom

“os livros não são feitos para serem armazenados, mas sim emprestados. (...) com esta condição concedi-te o empréstimo sobre penhor daqueles livros - com a condição de poder estudar e ensinar com eles e também empresta-los a outras pessoas”.

No século XIII - Rabino Meir de Rottenburg
“é comum um homem emprestar os próprios livros aos estudiosos”.

A leitura como ritual religioso
A institucionalização da leitura pública da Torá assumiu a função de preservação, transmissão e interpretação das fontes judaicas.

Tradução

A Tradução enquanto permanecia como ato de interpretação e explicação, continuou a ser incentivada pelos rabinos, pois era considerada um dos modos de comunicar e transmitir a palavra divina, embora as versões traduzidas fossem consideradas de importância secundária em relação ao original (hebraico). Uma maneira de interpretar as Escrituras consiste em sua tradução para outra língua, mais familiar ao ouvinte ou leitor. Nas antigas sinagogas de Israel, para evitar o perigo de deturpações e equívocos de tradução, tornou-se comum empregar um intérprete competente, conhecido como meturgeman, que traduzia oralmente as leituras das Escrituras, um (no caso da Torá), ou três (no caso dos Neviim) versos de cada vez, para o aramaico vernacular.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

The Israel Museum, Jerusalem

The Israel Museum, Jerusalem: El Museo de Israel es la mayor institución cultural del Estado de Israel y está considerado como uno de los museos de arte y arqueología líderes del mundo. Fundado en 1965, el Museo alberga colecciones en sus cuatro departamentos,– El Ala de Arte Bezalel, el Ala de Arqueología Bronfman, el Ala de Judaica y Etnografía Judía y el Ala Ruth para Jóvenes – e incluye la más extensa posesión en el mundo de objetos arqueológicos Biblicos y de Tierra Santa, entre ellos los Rollos del Mar Muerto. En apenas cuarenta años, el Museo ha construído una colección de comprenden una amplia gama de cerca de 500,000 objetos gracias al legado de obsequios y apoyo de su círculo mundial de mecenas.
Entre las pertenencias más importantes de las colecciones del Museo están los Rollos del Mar Muerto, los manuscritos Bíblicos más antiguos del mundo. Alojados en el Santuario del Libro, los rollos datan desde el siglo 2do. AEC hasta el siglo 1ro. EC e incluyen libros de la Biblia Hebrea así como también textos adicionales no canónicos. El Santuario del Libro alberga además raros manuscritos medievales de la Biblia, un auditorio y un centro de información y estudio.


Marcha contra Intolerância Religiosa

Veja mais:

Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa


Temas sobre:

Intolerância Religiosa



quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Criacionismo no quadro negro

O Globo, Ciência, página 37, em 17/09/2008.

Criacionismo no quadro negro

Cientista britânico defende ensino 'alternativo' sobre evolução e perde emprego


O delicado debate entre ciência e religião acaba de ganhar mais um capítulo. O comentário de um renomado pesquisador inglês sobre o criacionismo abriu um racha no meio científico inglês e culminou com a renúncia do biólogo Michael Reiss, diretor de educação da prestigiosa Royal Society, a academia de ciências do Reino Unido.

Há uma semana, durante um Festival da Ciência, em Liverpool, Reiss — que também é sacerdote da igreja Anglicana — disse ser favorável à discussão sobre todas as formas alternativas para a origem do universo — inclusive o criacionismo, que defende a idéia de que o mundo foi criado por um ser superior — nas aulas de ciência das escolas. Criticado por outros cientistas e pressionado pela sua própria instituição, Reiss, que disse ter sido mal interpretado, foi levado a abandonar o cargo, gerando mais críticas, dessa vez também à atuação da Royal Society.

Pedido de demissão gera controvérsia
Em comunicado oficial divulgado ontem, a Royal Society — que já teve Charles Darwin, o pai da Teoria da Evolução, entre seus integrantes — declarou seu apoio ao pedido de demissão de Reiss. “Comentários recentes do professor Michael Reiss sobre o criacionismo geraram muitos mal entendidos. Embora não fosse a sua intenção, isso causou danos à imagem da instituição.

Em seu pronunciamento em Liverpool, Reiss disse que, embora o criacionismo não tenha qualquer base científica, o assunto deveria ser discutido nas salas de aula porque a sua exclusão somente faria com que muitas crianças, vindas de famílias religiosas, se distanciassem cada vez mais da ciência.

A reação foi imediata. “O criacionismo se baseia na fé e não tem nada a ver com a ciência”, disse Lewis Wolpert, biólogo da University College, de Londres. Para John Fry, físico da Universidade de Liverpool, as aulas de ciências “não são o lugar apropriado para discutir uma teoria que se opõe a qualquer demonstração científica.”

Vaticano diz que Darwin nunca foi proibido
A renúncia de Reiss dividiu os cientistas. Robert Winston, do Colégio Imperial, em Londres, condenou a decisão: “Reiss estava tentando mostrar que deveríamos esclarecer os pontos polêmicos da ciência e isso deveria ser aplaudido pela Royal Society”. Para Harry Kroto, Prêmio Nobel de Química, a decisão foi acertada. “Um educador jamais poderia dar o sinal verde para que surgissem interpretações religiosas sobre a origem do universo”.

Na Itália, o presidente do Pontifício Conselho para a Cultura, Gianfranco Ravasi, disse que não há contraposição entre a fé e a teoria da evolução de Charles Darwin, lembrando que o naturalista britânico nunca foi condenado pela Igreja.

A declaração foi feita durante a apresentação no Vaticano de um congresso que será realizado em Roma, ano que vem, sob o título “Evolução biológica: fatos e teorias. Uma avaliação crítica 150 anos após A origem das espécies.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Novos estudos sobre Jesus: o que é mito e o que é verdade

Novos estudos sobre Jesus: o que é mito e o que é verdade
CSI Jesus: Novas descobertas trazem à tona um homem simples, talvez analfabeto, difícil de ser rastreado e longe de se sentir uma entidade poderosa e onisciente. Como ficam as crenças cristãs diante desse Jesus histórico? >>> Leia mais na Revista Galileu, edição 206, set/2008.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Biblia Hebraica: Portal de Estudos sobre a Bíblia Hebraica (Edson de Faria Francisco)

Biblia Hebraica: Portal de Estudos sobre a Bíblia Hebraica (Edson de Faria Francisco)
O site Biblia Hebraica (lat. Bíblia Hebraica) é dedicado ao estudo de vários aspectos relacionados à Bíblia Hebraica e também ao estudo do hebraico bíblico. Este site fornece vários materiais úteis para aqueles que trabalham com a Bíblia Hebraica e com o hebraico bíblico, como textos originais, fontes (hebraicas e gregas), ilustrações, textos didáticos, textos históricos, bibliografia (gramáticas, dicionários e concordâncias), entre outros recursos. O objetivo principal deste sítio on-line é ser uma ferramenta de auxílio na pesquisa de temas relacionados ao universo bíblico em solo brasileiro.

domingo, 14 de setembro de 2008

Reportagens do G1 sobre Jesus

Reportagens de Reinaldo José Lopes do G1, em 14/09/2008 sobre Jesus.

Pesquisa sobre 'Jesus histórico' retrata Cristo mais humano, mas não ameaça fé
Anúncio do Reino de Deus, judaísmo e humildade marcam Nazareno. Evangelhos mesclam fatos e interpretações feitas por grupos cristãos.

Existência histórica de Jesus Cristo é inquestionável, afirmam especialistas
Fontes cristãs, judaicas e pagãs evidenciam historicidade do homem. Menções lacônicas fora do Novo Testamento mostram desimportância.

Para historiador, Evangelhos apócrifos trazem poucos dados sérios sobre Jesus
Textos 'barrados' na Bíblia despertam interesse por ter visões alternativas. Obras, porém, são muito tardias, além de 'copiar' evangelistas oficiais.

Entenda critérios usados por estudiosos para decidir o que vem de Jesus
Fatos constrangedores, revolucionários e múltiplas fontes são essenciais. Pesquisadores tentam 'filtrar' lado teológico e fé presente nos Evangelhos.

sábado, 13 de setembro de 2008

Anais do último Congresso da SOTER

21º Congresso Anual da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião – Soter
Conferências – Painel - Mesas de Estudo - Grupos de Trabalho
Edição digital – ebook - Paulinas 2008

Discurso de Bento XVI a representantes da comunidade judaica

«Ser anti-semita significava também ser anticristão»

PARIS, sexta-feira, 12 de setembro de 2008 (ZENIT.org).- Publicamos o discurso que Bento XVI pronunciou na tarde desta sexta-feira durante um breve encontro com representantes da comunidade judaica na nunciatura apostólica de Paris.

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Queridos amigos, esta tarde vos recebo com prazer. É uma feliz circunstância que nosso encontro tenha sido marcado na vigília da celebração semanal do shabbat, o dia que desde tempos imemoriais ocupa um lugar tão relevante na vida religiosa e cultural do povo de Israel. Todo judeu piedoso santifica o shabbat lendo as Escrituras e recitando os salmos. Queridos amigos, vós sabeis, também a oração de Jesus se nutria dos salmos. Ele ia regularmente ao templo e à sinagoga. Ouvia lá a palavra no dia do sábado. Ele quis sublinhar com que bondade Deus cuida do homem, também inclusive na organização do tempo. O Talmud Yoma (85b) não diz por acaso «O sábado foi dado a vós, mas vós não fostes dados ao sábado»?. Cristo pediu ao povo da Aliança que reconhecesse sempre a inaudita grandeza e o amor do Criador de todos os homens. Queridos amigos, por ocasião do que nos une e por motivo do que nos separa, temos de viver e fortalecer nossa fraternidade. E sabemos que os laços da fraternidade constituem um convite contínuo a conhecer-se melhor e respeitar-se.

Por sua própria natureza, a Igreja Católica se sente chamada a respeitar a Aliança estabelecida pelo Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó. Ela se situa também, de fato, na Aliança eterna do Onipotente, que não se arrepende de seus desígnios e respeita os filhos da Promessa, os filhos da Aliança, como seus irmãos amados na fé. Ela repete com força, através de minha voz, as palavras do grande Papa Pio XI, meu venerado predecessor: «Espiritualmente, nós somos semitas» (Alocução a peregrinos belgas, 6/09/1938). A Igreja, por isso, opõe-se a toda forma de anti-semitismo, do qual não há nenhuma justificação teológica aceitável. O teólogo Henri de Lubac, em uma hora «de trevas», como dizia Pio XII (Summi Pontificatus, 20.10.1939), compreendeu que ser anti-semita significava também ser anticristão. Mais uma vez, sinto o dever de prestar uma comovida homenagem àqueles que morreram injustamente e àqueles que se ocuparam de que os nomes das vítimas ficassem presentes na lembrança. Deus não esquece!

Não posso deixar de reconhecer, em uma ocasião como esta, o papel eminente que tiveram os hebreus da França para a edificação da nação inteira e sua prestigiosa contribuição a seu patrimônio espiritual. Eles deram – e continuam dando – grandes figuras ao mundo da política, da cultura e da arte. Faço votos respeitosos e cheios de afeto para cada um deles e invoco com fervor sobre todas vossas famílias e todas vossas comunidades uma particular bênção do Senhor dos tempos e da história. Shabbat shalom!

domingo, 7 de setembro de 2008

Livros bíblicos podem ter autoria 'falsa', afirmam especialistas

Escritores usavam nome de antigos profetas e apóstolos para se legitimar. Prática também era forma de continuar e atualizar obra de predecessores.

Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo, em 07/09/2008
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Trito-Isaías? Deutero-Zacarias? Epístolas Pastorais? A nomenclatura é complicada, mas se refere a um fato simples e, para as sensibilidades modernas, um tanto embaraçoso: é praticamente certo que os autores presumidos de uma série de livros bíblicos não sejam bem quem eles dizem ser. A chamada pseudoepigrafia, ou seja, o uso de uma identidade mais famosa e antiga para embasar a autoria de um novo texto, é um fenômeno relativamente comum no Antigo e no Novo Testamento.

Basta dizer que o livro do profeta Isaías provavelmente foi escrito por três (ou mais) autores (o Isaías histórico, o Deutero-Isaías e o Trito-Isaías); que cerca de metade das cartas de São Paulo tenham sua origem colocada sob suspeita por estudiosos atuais; e que nenhuma das chamadas cartas de São Pedro, também no Novo Testamento, possa ser atribuída a ele com segurança.

As razões que levaram ao fenômeno da pseudoepigrafia são complexas, e nem sempre justificariam um processo de direitos autorais movido pelos personagens bíblicos originais contra seus “plagiadores”. “A visão de autoria na Antigüidade era muito diferente da nossa”, explica o professor Gelci André Colli, da Faculdade Teológica Batista do Paraná, doutorando em teologia bíblica. Colli estudou um desses casos famosos, o livro de Isaías. “Na verdade, dar continuidade à obra de um profeta muitas vezes ficava nas mãos de seus discípulos e seguidores, que compilavam seus oráculos. Fazer isso era uma forma de honrar o mestre”, diz ele.

Seja entre os antigos israelitas, seja entre os primeiros cristãos, outro fenômeno comum era a necessidade de adequar a mensagem profética ou evangélica original a uma nova realidade e a novos problemas, que o autor original não havia enfrentado em vida. Escrever em nome dele fechava essa brecha entre o passado e o presente e, de quebra, emprestava ao novo escritor a autoridade do mestre falecido, garantindo que as comunidades a quem a mensagem era endereçada prestassem atenção. No caso de alguns livros judaicos que acabaram não entrando no cânon (lista oficial) da Bíblia, surgiu todo um gênero literário nesses moldes, o dos chamados “Testamentos dos Antigos”.

Três Isaías, dois Zacarias?
No caso do livro de Isaías, famoso entre os cristãos por causa das profecias diretamente associadas a Jesus, rabinos medievais já reconheciam ao menos uma grande divisão de estilo e temática entre o capítulo 39 e o 40 da obra como a conhecemos hoje.

“Entre os pergaminhos encontrados nas cavernas de Qumran, perto do mar Morto, temos um manuscrito muito longo e muito famoso de Isaías. E nele há uma lacuna depois do capítulo 39, e uma nova coluna começa no capítulo 40, o que parece sinalizar algum tipo de reconhecimento implícito de que há uma diferença entre essas duas seções”, afirma Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale, nos Estados Unidos. E não é para menos, já que o Isaías histórico viveu por volta do ano 700 a.C., quando descendentes do rei Davi ainda viviam em Jerusalém e governavam Judá, no sul da Palestina – enquanto o autor do capítulo 40, e de vários subseqüentes, fala de uma época em que Jerusalém estava destruída e boa parte de seus moradores vivia exilado na Babilônia, por volta do ano 550 a.C.

Até aí, o profeta não teria sido capaz de prever o que aconteceria 150 anos depois, com inspiração divina? Não é essa a questão, argumenta Colli. “As pessoas têm um entendimento errado sobre o que é o profeta bíblico. Ele não é o sujeito que fecha os olhos e de repente vê, em detalhes, o que vai acontecer dali a centenas de anos. O profeta é aquele que vê o futuro, mas sempre a partir do presente. Ele olha o presente, analisa e indica o que a vontade divina revela”, diz o pesquisador.

Além dos dados de Qumran e do contexto histórico, características literárias também levam os pesquisadores a atribuir a autoria do capítulo 40 e seguintes a um profeta/poeta anônimo convencionalmente conhecido como Deutero-Isaías, ou Segundo Isaías (da palavra grega para “segundo”). “O estilo do Primeiro Isaías é muito mais direto, enquanto a qualidade e a beleza poética das descrições do Deutero-Isaías não têm rival em todo o Antigo Testamento anterior a ele”, exemplifica Colli.

"Também há uma diferença grande entre a prosa da primeira parte do livro e a poesia no capítulo 40. Finalmente, há uma diferença grande entre as mensagens de advertência e julgamento anteriores e as falas do Deutero-Isaías, que só predizem coisas boas para os exilados de Judá”, afirma o especialista. Para Colli, o anônimo Deutero-Isaías provavelmente fazia parte de um círculo de admiradores do Isaías original, os quais compilaram e ampliaram seus oráculos proféticos durante o exílio na Babilônia.

Como se a coisa não fosse suficientemente complicada, muitos estudiosos também enxergam uma mudança igualmente significativa a partir do capítulo 56 e até o fim do livro: esse seria o Trito-Isaías, um profeta que escreve depois da volta dos exilados para a Palestina e tem preocupações bem diferentes. Um fenômeno parecido estaria presente no livro do profeta Zacarias, que misturaria oráculos que vão do século 6 a.C. ao século 4 a.C.

Dois Pedros, vários Paulos?
A situação é ainda mais curiosa no caso das cartas atribuídas aos apóstolos Pedro e Paulo no Novo Testamento, afirma Bart D. Ehrman, pesquisador do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA) e autor do livro “Pedro, Paulo e Maria Madalena”, recém-lançado no Brasil.

O fato é que, fora do cânon da Bíblia, há inúmeros textos atribuídos a Pedro e Paulo (dois Apocalipses, um de cada apóstolo, e até um Evangelho de Pedro) que foram rejeitados como inautênticos pelas comunidades cristãs. No caso da Primeira Carta de Pedro, aceita como canônica, Ehrman afirma que, primeiro, é estranho que ela seja endereçada a comunidades da Ásia Menor (atual Turquia), fundadas e coordenadas originalmente por Paulo, e não por Pedro. Também surpreende o grego elegante e refinado do autor, enquanto o Pedro histórico era um pescador iletrado da Galiléia, que provavelmente só falava aramaico.

“Naturalmente, seria possível que, após a ressurreição de Jesus, Pedro tivesse voltado à escola, aprendido grego, praticado como escrever excelentes textos nessa língua, estudado a fundo a Bíblia em grego e, ainda por cima, escrito uma carta como essa para um grupo de pessoas sobre as quais não há outras notícias de contatos de sua parte. Mas parece improvável”, escreve Ehrman.

Mais fortes ainda são as evidências contra a Segunda Carta de Pedro, que não é mencionada por nenhum outro autor cristão até o século 3 d.C., lida com as dificuldades da demora do retorno de Jesus à Terra (um problema que só teria se tornado agudo para os cristãos da segunda e terceira gerações), fala das cartas de São Paulo como se elas já fossem um texto sagrado (mas todas não estariam circulando ao mesmo tempo, as dele e as de Pedro?) e menciona “os vossos apóstolos”, como se o autor da carta não fosse ele próprio um apóstolo, supostamente.

E, falando das epístolas de Paulo, elas sofrem de um problema parecido, diz Ehrman. Sete das 13 incluídas no Novo Testamento são incontestavelmente dele: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon. O resto, explica o pesquisador, fica sob suspeita por não seguir o estilo literário das cartas incontestáveis, apresentar contradições flagrantes com a teologia paulina nessas cartas e se referir a um contexto histórico que só surgiu depois que Paulo já havia morrido.

O caso mais flagrante é o das chamadas Epístolas Pastorais, supostamente endereçadas pelo apóstolo a seus companheiros Tito e Timóteo, que teriam virado chefes das igrejas de Éfeso, na Ásia Menor, e da ilha de Creta. Para começar, o autor das Epístolas Pastorais pressupõe que seus destinatários trabalham em igrejas bem-organizadas, servidas por diáconos, ministradas por presbíteros (“ancestrais” dos modernos padres) e chefiadas por bispos. Acontece que, na época do Paulo histórico, tudo indica que essa organização ainda não havia emergido.

Coisa parecida se dá em relação ao papel das mulheres nessas igrejas. Ao que tudo indica, o Paulo original não via problemas com a participação direta das mulheres nas celebrações cristãs, profetizando e tomando a palavra para pregar. Já seus sucessores das Epístolas Pastorais proíbem terminantemente as cristãs de ocupar qualquer cargo de relevo na comunidade
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sábado, 6 de setembro de 2008

Arqueólogos encontram indícios de muralha de Jerusalém nos tempos de Jesus

Muralhas cercavam a Cidade Santa durante a época do Segundo Templo

Fortificação de 3 m de altura cercava a cidade durante o século 1 d.C. Pesquisadores também encontraram restos de escavação do século 19

Gazeta do Povo online, em 03/09/2008 Arqueólogos de Israel anunciaram nesta quarta-feira (3) no Monte Sião vestígios da face sul da muralha que cercava Jerusalém no século 1 d.C., o que ajuda a esclarecer um pouco mais da cidade pela qual caminharam personagens históricos como Jesus Cristo e Herodes.

Durante entrevista coletiva, a equipe de estudiosos revelou partes da muralha que cercava a Cidade Santa durante a época do Segundo Templo (518 a.C. a 70 d.C.).

O diretor da escavação, Yehiel Zelinger, afirmou que sabiam dos restos da muralha. "Sabíamos que existiam restos da muralha e por onde passavam, mas nunca a tínhamos visto e agora estarão à vista de todos", informou à Agência EFE.

O muro, em Monte Sião, no sul da ponta da Cidade Velha de Jerusalém, remonta ao Segundo Templo Judeu, que foi destruído pelos romanos em 70 d.C.

Veja mais:
Descoberta permitirá conhecer mais detalhes sobre o Segundo Templo
Jerusalem ancient walls unveiled

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Declaração inter-religiosa a favor do matrimônio tradicional

Emitida nos Estados Unidos

Por Nieves San Martín

WASHINGTON, sexta-feira, 5 de setembro de 2008 (
ZENIT.org).- Representantes judeus ortodoxos e católicos e membros da Conferência Episcopal dos Estados Unidos, da União Ortodoxa e do Conselho Rabínico da América emitiram uma declaração conjunta sobre o matrimônio, intitulada «Criados à sua Divina Imagem».

A declaração está assinada pelo rabino Fabian Schonfeld, da Sinagoga Jovem Israel, Kew Gardens Hills, Nova York, e pelo bispo William Murphy, de Rockville Centre, e membros da Consulta.

Nela, reconhecem que muitas comunidades dos Estados Unidos estão agora empenhadas em um novo diálogo sobre o significado da palavra «casamento», interrogando-se «se deveria descrever só a união entre um homem e uma mulher».

«Como líderes de nossas respectivas confissões – indicam os assinantes da declaração –, nós como rabinos ortodoxos, líderes comunais e representantes dos bispos católicos dos Estados Unidos, desejamos afirmar nosso compromisso compartilhado com o mandamento de Deus, o Todo-Poderoso, que criou homem e mulher à sua divina imagem (Gn 1, 26-27), de maneira que pudessem compartilhar, como homem e mulher, como companheiros e iguais (Gn. 2:21-24), a procriação dos filhos (Gen. 1, 28) e a construção da sociedade».

Os representantes judeus e católicos constatam que «agora enfrentamos uma demanda de que as uniões do mesmo sexo sejam classificadas como matrimônio».

Afirmam que quem defende esta posição argumenta que «atuar de outra maneira é assumir uma forma de discriminação contra os homossexuais».

«Nós reconhecemos – dizem a este respeito – que todas as pessoas compartilham a igualdade na dignidade da natureza humana e têm direito a que se proteja essa dignidade humana, mas isso não justifica a criação de uma nova definição para um termo cujo significado tradicional é de importância crítica para manter um interesse societário fundamental.»

Os assinantes da declaração afirmam que «o desígnio de Deus para a continuação da vida humana, como se vê na ordem natural, assim como na Bíblia (Gn 1-3), claramente trata da união de homem e mulher, primeiro como esposo e esposa, e depois como pais».

Neste sentido, sublinham que «um fim exclusivo do matrimônio, que é a reprodução e a criação de famílias, acontece fora das uniões do mesmo sexo, que não podem participar da mesma maneira nesta função essencial».

«Ainda que outros possam exigir o direito de estabelecer relações privadas entre pessoas do mesmo gênero, que simulam o matrimônio, a classificação legal de tais relações como matrimônio dilui a condição especial de matrimônio entre um homem e uma mulher», indicam.

«Dado que o futuro de cada sociedade – acrescentam – depende de sua capacidade para reproduzir-se segundo sua ordem natural e para ter seus jovens em um ambiente estável, é dever do Estado proteger o lugar tradicional do matrimônio e a família pelo bem da sociedade.» «Ainda que outros tenham a liberdade de discordar de nós – sublinham –, esperamos que inclusive aqueles que estão fora de nossas comuns tradições religiosas reconheçam que falamos desde a verdade da própria natureza humana, que é coerente tanto com a razão como com a vida moral.»

Os assinantes concluem sua declaração fazendo um convite às suas «comunidades locais de fé para que considerem cuidadosamente as tradições mantidas por tanto tempo de judeus e cristãos sobre a natureza do matrimônio construído sobre o compromisso de um homem e uma mulher desejosos de estabelecer uma família para contribuir com o bem da humanidade».

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Descoberta permitirá conhecer mais detalhes sobre o Segundo Templo

Jornal Alef, Edição 1217, em 05/09/2008 - Após um ano e meio de escavações, arqueólogos israelenses descobriram, no Monte Sião, vestígios da face sul da muralha que cercava Jerusalém na época do Segundo Templo, entre 518 E.C. e 70 E.C – o que permitirá ter idéia mais exata de como era a cidade naquela época. “No período, a cidade foi um ponto de peregrinação judaica”, contou o diretor da escavação, Yehiel Zelinger. Os muros encontrados, com cerca de 3 metros de largura, bem como o templo, foram destruídos pelos romanos em 70 E.C. Os especialistas também descobriram uma outra muralha do período Bizantino, de 324 E.C. a 640 E.C. O achado de duas construções de épocas distintas, segundo Zelinge, é uma esperança de encontrar vestígios da muralha da época do Primeiro Templo de Salomão, que foi destruído em 587 E.C.
Veja mais:

Jerusalem ancient walls unveiled

Archaeologists in Jerusalem have given a first glimpse of what they say is a newly-exposed section of the city walls built 2,100 years ago. >>> Leia mais em BBC News, em 03/09/2008.

Dica de Dr. Jim West.

Guia prático para o mês de Elul

terça-feira, 2 de setembro de 2008

The Temple in the Book of Haggai

The Temple in the Book of Haggai
Elie Assis
Journal of Hebrew Scriptures - Volume 8: Article 19 (2008)
Abstract:
This article explores the Temple ideology that characterizes the book of Haggai and its innovative features. It explains Haggai's new approach in terms of the particular situation of the period, including its geo-political circumstances and its implications for theological thinking in ancient Israel.

Saul as a Just Judge in Josephus' Antiquities of the Jews

Saul as a Just Judge in Josephus' Antiquities of the Jews
Michael Avioz
Journal of Hebrew Scriptures - Volume 8: Article 18 (2008)
Abstract:
This essay reconsiders Louis Feldman's assertion that Josephus characterized Saul as a king who administered justice. This assertion is examined against the narratives in 1 Samuel 14 and 22. My conclusion is that Josephus did not praise Saul for being a just king. In this regard, his characterization of Saul is consistent with the biblical narratives in 1 Samuel 14 and 22, which denounce Saul for being a negative model of the king as supreme judge.

"The Editor was Nodding" - A Reading of Leviticus 19. In Memory of Mary Douglas

"The Editor was Nodding" - A Reading of Leviticus 19. In Memory of Mary Douglas
Moshe Kline
Journal of Hebrew Scriptures - Volume 8: Article 17 (2008)
Abstract:
Leviticus 19 was constructed as a true table consisting of two columns and five rows. The columns are inverted parallels; one is ordered from positive to negative and the other from negative to positive. The rows are ordered according to the degree of God's connection to the specific laws. The five by two table is based on the author's reading of the Exodus 20 Decalogue as five consecutive pairs according to the division into ten Words that appears in the MT. This arrangement of the Decalogue is "quoted" in Leviticus 19.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Curso: "Jesus no Cinema"

O Centro Loyola em parceria com as Paulinas e o Departamento de História da UFRJ convida para o curso “Jesus no cinema”.