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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 7 de setembro de 2008

Livros bíblicos podem ter autoria 'falsa', afirmam especialistas

Escritores usavam nome de antigos profetas e apóstolos para se legitimar. Prática também era forma de continuar e atualizar obra de predecessores.

Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo, em 07/09/2008
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Trito-Isaías? Deutero-Zacarias? Epístolas Pastorais? A nomenclatura é complicada, mas se refere a um fato simples e, para as sensibilidades modernas, um tanto embaraçoso: é praticamente certo que os autores presumidos de uma série de livros bíblicos não sejam bem quem eles dizem ser. A chamada pseudoepigrafia, ou seja, o uso de uma identidade mais famosa e antiga para embasar a autoria de um novo texto, é um fenômeno relativamente comum no Antigo e no Novo Testamento.

Basta dizer que o livro do profeta Isaías provavelmente foi escrito por três (ou mais) autores (o Isaías histórico, o Deutero-Isaías e o Trito-Isaías); que cerca de metade das cartas de São Paulo tenham sua origem colocada sob suspeita por estudiosos atuais; e que nenhuma das chamadas cartas de São Pedro, também no Novo Testamento, possa ser atribuída a ele com segurança.

As razões que levaram ao fenômeno da pseudoepigrafia são complexas, e nem sempre justificariam um processo de direitos autorais movido pelos personagens bíblicos originais contra seus “plagiadores”. “A visão de autoria na Antigüidade era muito diferente da nossa”, explica o professor Gelci André Colli, da Faculdade Teológica Batista do Paraná, doutorando em teologia bíblica. Colli estudou um desses casos famosos, o livro de Isaías. “Na verdade, dar continuidade à obra de um profeta muitas vezes ficava nas mãos de seus discípulos e seguidores, que compilavam seus oráculos. Fazer isso era uma forma de honrar o mestre”, diz ele.

Seja entre os antigos israelitas, seja entre os primeiros cristãos, outro fenômeno comum era a necessidade de adequar a mensagem profética ou evangélica original a uma nova realidade e a novos problemas, que o autor original não havia enfrentado em vida. Escrever em nome dele fechava essa brecha entre o passado e o presente e, de quebra, emprestava ao novo escritor a autoridade do mestre falecido, garantindo que as comunidades a quem a mensagem era endereçada prestassem atenção. No caso de alguns livros judaicos que acabaram não entrando no cânon (lista oficial) da Bíblia, surgiu todo um gênero literário nesses moldes, o dos chamados “Testamentos dos Antigos”.

Três Isaías, dois Zacarias?
No caso do livro de Isaías, famoso entre os cristãos por causa das profecias diretamente associadas a Jesus, rabinos medievais já reconheciam ao menos uma grande divisão de estilo e temática entre o capítulo 39 e o 40 da obra como a conhecemos hoje.

“Entre os pergaminhos encontrados nas cavernas de Qumran, perto do mar Morto, temos um manuscrito muito longo e muito famoso de Isaías. E nele há uma lacuna depois do capítulo 39, e uma nova coluna começa no capítulo 40, o que parece sinalizar algum tipo de reconhecimento implícito de que há uma diferença entre essas duas seções”, afirma Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale, nos Estados Unidos. E não é para menos, já que o Isaías histórico viveu por volta do ano 700 a.C., quando descendentes do rei Davi ainda viviam em Jerusalém e governavam Judá, no sul da Palestina – enquanto o autor do capítulo 40, e de vários subseqüentes, fala de uma época em que Jerusalém estava destruída e boa parte de seus moradores vivia exilado na Babilônia, por volta do ano 550 a.C.

Até aí, o profeta não teria sido capaz de prever o que aconteceria 150 anos depois, com inspiração divina? Não é essa a questão, argumenta Colli. “As pessoas têm um entendimento errado sobre o que é o profeta bíblico. Ele não é o sujeito que fecha os olhos e de repente vê, em detalhes, o que vai acontecer dali a centenas de anos. O profeta é aquele que vê o futuro, mas sempre a partir do presente. Ele olha o presente, analisa e indica o que a vontade divina revela”, diz o pesquisador.

Além dos dados de Qumran e do contexto histórico, características literárias também levam os pesquisadores a atribuir a autoria do capítulo 40 e seguintes a um profeta/poeta anônimo convencionalmente conhecido como Deutero-Isaías, ou Segundo Isaías (da palavra grega para “segundo”). “O estilo do Primeiro Isaías é muito mais direto, enquanto a qualidade e a beleza poética das descrições do Deutero-Isaías não têm rival em todo o Antigo Testamento anterior a ele”, exemplifica Colli.

"Também há uma diferença grande entre a prosa da primeira parte do livro e a poesia no capítulo 40. Finalmente, há uma diferença grande entre as mensagens de advertência e julgamento anteriores e as falas do Deutero-Isaías, que só predizem coisas boas para os exilados de Judá”, afirma o especialista. Para Colli, o anônimo Deutero-Isaías provavelmente fazia parte de um círculo de admiradores do Isaías original, os quais compilaram e ampliaram seus oráculos proféticos durante o exílio na Babilônia.

Como se a coisa não fosse suficientemente complicada, muitos estudiosos também enxergam uma mudança igualmente significativa a partir do capítulo 56 e até o fim do livro: esse seria o Trito-Isaías, um profeta que escreve depois da volta dos exilados para a Palestina e tem preocupações bem diferentes. Um fenômeno parecido estaria presente no livro do profeta Zacarias, que misturaria oráculos que vão do século 6 a.C. ao século 4 a.C.

Dois Pedros, vários Paulos?
A situação é ainda mais curiosa no caso das cartas atribuídas aos apóstolos Pedro e Paulo no Novo Testamento, afirma Bart D. Ehrman, pesquisador do Departamento de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill (EUA) e autor do livro “Pedro, Paulo e Maria Madalena”, recém-lançado no Brasil.

O fato é que, fora do cânon da Bíblia, há inúmeros textos atribuídos a Pedro e Paulo (dois Apocalipses, um de cada apóstolo, e até um Evangelho de Pedro) que foram rejeitados como inautênticos pelas comunidades cristãs. No caso da Primeira Carta de Pedro, aceita como canônica, Ehrman afirma que, primeiro, é estranho que ela seja endereçada a comunidades da Ásia Menor (atual Turquia), fundadas e coordenadas originalmente por Paulo, e não por Pedro. Também surpreende o grego elegante e refinado do autor, enquanto o Pedro histórico era um pescador iletrado da Galiléia, que provavelmente só falava aramaico.

“Naturalmente, seria possível que, após a ressurreição de Jesus, Pedro tivesse voltado à escola, aprendido grego, praticado como escrever excelentes textos nessa língua, estudado a fundo a Bíblia em grego e, ainda por cima, escrito uma carta como essa para um grupo de pessoas sobre as quais não há outras notícias de contatos de sua parte. Mas parece improvável”, escreve Ehrman.

Mais fortes ainda são as evidências contra a Segunda Carta de Pedro, que não é mencionada por nenhum outro autor cristão até o século 3 d.C., lida com as dificuldades da demora do retorno de Jesus à Terra (um problema que só teria se tornado agudo para os cristãos da segunda e terceira gerações), fala das cartas de São Paulo como se elas já fossem um texto sagrado (mas todas não estariam circulando ao mesmo tempo, as dele e as de Pedro?) e menciona “os vossos apóstolos”, como se o autor da carta não fosse ele próprio um apóstolo, supostamente.

E, falando das epístolas de Paulo, elas sofrem de um problema parecido, diz Ehrman. Sete das 13 incluídas no Novo Testamento são incontestavelmente dele: Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filêmon. O resto, explica o pesquisador, fica sob suspeita por não seguir o estilo literário das cartas incontestáveis, apresentar contradições flagrantes com a teologia paulina nessas cartas e se referir a um contexto histórico que só surgiu depois que Paulo já havia morrido.

O caso mais flagrante é o das chamadas Epístolas Pastorais, supostamente endereçadas pelo apóstolo a seus companheiros Tito e Timóteo, que teriam virado chefes das igrejas de Éfeso, na Ásia Menor, e da ilha de Creta. Para começar, o autor das Epístolas Pastorais pressupõe que seus destinatários trabalham em igrejas bem-organizadas, servidas por diáconos, ministradas por presbíteros (“ancestrais” dos modernos padres) e chefiadas por bispos. Acontece que, na época do Paulo histórico, tudo indica que essa organização ainda não havia emergido.

Coisa parecida se dá em relação ao papel das mulheres nessas igrejas. Ao que tudo indica, o Paulo original não via problemas com a participação direta das mulheres nas celebrações cristãs, profetizando e tomando a palavra para pregar. Já seus sucessores das Epístolas Pastorais proíbem terminantemente as cristãs de ocupar qualquer cargo de relevo na comunidade
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