Boletim ASA, Número 116, jan-fev/2009.
Pio XII
O eco dos comentários - Luitgarde Oliveira Cavalcanti Barros
Blog acadêmico de temas bíblicos com ênfase nos Estudos Judaicos (na área bíblica).
Beatificação de Pio 12 causa indisposição entre o Vaticano e Israel, devido à controversa atuação do papa durante o Holocausto. >>> Leia mais Guido Mendes, amigo judeu de Pio XII
ROMA, segunda-feira, 20 de outubro de 2008 (ZENIT.org).- No livro Pio XII. Un uomo sul trono di Pietro, da Editora Mondadori, Andrea Tornielli relata a história de Guido Mendes, o amigo judeu do Papa Pacelli.
Der Spiegel, em 13/10/2008 - O papa Bento 16 alimentou na quinta-feira passada as especulações sobre a possível beatificação do papa Pio 12, criticado com freqüência por não ter feito o suficiente para combater o Holocausto. O Vaticano tem trabalhado duro para melhorar a imagem popular de Pio.
Normalmente, o processo de beatificação é um negócio a portas fechadas, que acontece dentro do Vaticano, bem longe do olhar do público. Mas não dessa vez. Há meses a Igreja Católica está enviando sinais de que beatificação do papa Pio 12, que comandou a Igreja Católica durante a 2ª Guerra Mundial, pode ser iminente. Alguns historiadores e líderes judeus, entretanto, protestaram contra a atitude, argumentando que Pio 12 fez menos do que deveria para salvar os judeus do Holocausto.
O papa Bento 16 lançou na terça-feira uma saraivada de argumentos em defesa de Pio 12. Falando durante uma missa na Basílica de São Pedro em comemoração ao 50º aniversário da morte de Pio, Bento disse que o pontífice, que se tornou papa em 1939 logo antes do irromper da guerra, "trabalhou em silêncio e em segredo" durante o conflito "para evitar o pior e salvar o maior número possível de judeus."
Bento lembrou ao público que a ministro israelense de relações exteriores Golda Meir homenageou Pio quando ele morreu em 9 de outubro de 1958. Bento 16 também enfatizou uma mensagem de Natal de Pio para o rádio em dezembro de 1942, na qual ele falou sobre as "centenas de milhares de pessoas que, sem terem cometido nenhum erro, apenas por razões de nacionalidade ou raízes étnicas, foram destinadas à morte ou à lenta deterioração."
O processo de beatificação, a etapa formal final antes de declarar a santidade, "pode acontecer com alegria", disse Bento 16 na quinta-feira.
Entretanto, nem todo mundo é tão otimista quanto à perspectiva de santificação de Pio 12. O rabino chefe da cidade de Haifa (em Israel), She'ar Yashuv Cohen, que na segunda-feira se tornou o primeiro judeu a falar diante do concílio de bispos do Vaticano, disse que muitos judeus estavam descontentes em relação a Pio.
"Sentimos que o finado papa deveria ter se posicionado mais fortemente do que fez", disse numa entrevista coletiva antes de falar ao concílio. "Ele pode ter ajudado muitas vítimas e refugiados em segredo, mas a questão é: ele poderia ter erguido sua voz? E isso teria ajudado ou não? Nós, como vítimas, sentimos que (a resposta é) sim."
Outros não foram tão diplomáticos. Num livro de 1999 chamado "Hitler's Pope" ["O Papa de Hitler"], o escritor britânico John Cornwell documentou o papel de Pio antes de se tornar papa, na negociação do "Reichskonkordat", tratado assinado entre a Alemanha Nazista e a Igreja Católica em 1933. Muitos historiadores argumentaram que esse acordo fornecia ao regime nazista um grau substancial de legitimidade internacional.
Mas a afirmação de Cornwell de que o papa Pio 12 falhou em tomar uma ação séria para salvar os judeus tem sido confrontada e o próprio autor se retratou de algumas de suas alegações mais controversas em relação à suposta aquiescência de Pio.
Mesmo assim, muitos judeus ainda são críticos em relação ao papel que Pio desempenhou. Sua foto no museu do Holocausto Yad Vashem inclui uma descrição bastante dura.
"Mesmo quando notícias do assassinato de judeus chegaram ao Vaticano, o papa não protestou nem verbalmente nem escrevendo", diz a legenda. "Em dezembro de 1942, ele se absteve de assinar a declaração aliada condenando o extermínio de judeus. Quando os judeus foram deportados de Roma para Auschwitz, o papa não interveio."
A veracidade da legenda da foto foi questionada pelo Vaticano e o museu disse que estaria aberto a realizar uma nova pesquisa sobre o assunto. Os defensores de Pio argumentam que o papa da época da guerra trabalhou duro nos bastidores para proteger os judeus dos campos de concentração nazistas.
O jornal do Vaticano, L'Osservatore Romano, publicou na terça-feira um artigo de página inteira elogiando os esforços de Pio durante a 2ª Guerra Mundial. O jornal também incluía um texto escrito pelo secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Tarcisio Bertone. "Se ele tivesse feito uma intervenção pública, teria colocado em perigo a vida de milhares de judeus, que, sob suas ordens, foram escondidos em 155 conventos e monastérios apenas em Roma", escreveu Bertone.
O padre jesuíta Peter Gumpel, que, como investigador-chefe do Vaticano, passou anos pesquisando sobre o papa para avaliar sua candidatura à santidade, deu sua bênção para a beatificação. Em entrevista ao jornal Süddeutsche Zeitung na terça-feira, Gumpel disse que leu tudo o que conseguiu encontrar, e teve acesso a arquivos do Vaticano que ainda não foram colocados à disposição do público.
"Se eu tivesse encontrado algo incriminador nos arquivos, eu nunca teria assinado", disse Gumpel ao Süddeutsche. "Afinal, eu tenho muita responsabilidade como o juiz de investigação."
O caminho para a beatificação do papa Pio 12, que começou em 1967, nem sempre foi direto e sofreu repetidos atrasos. Com o processo de beatificação aparentemente em marcha, alguns argumentam que este é o momento para a Igreja Católica abrir seus arquivos para que os historiadores independentes possam olhá-los.
"Eu gostaria que eles gastassem uma grande porcentagem de seu tempo e esforços para abrir os arquivos, e menos tempo selecionando o que apresentam", disse Abraham Foxman da Liga Anti-Difamação (ADL) recentemente ao jornal National Catholic Reporter. Foxman e a ADL se opõem consistentemente à beatificação de Pio. "Eles estão protestando demais. Estamos dispostos a suspender o nosso julgamento e o Vaticano deveria suspender o seu (próprio) até que os acadêmicos pudessem examinar abertamente o material e ver o que existe lá."
Tradução: Eloise De Vylder
Na quinta-feira, 9 de outubro, Bento 16 voltou a argumentar em favor da beatificação do papa Pio 12 (1939-1958), por ocasião da missa celebrada em Roma que se destinava a comemorar o qüinquagésimo aniversário da sua morte. A despeito da controvérsia que cerca até hoje a atitude de Pio 12 em relação aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial, o Vaticano parece estar determinado a ir até a conclusão deste processo, que foi iniciado em 1965. "Nós oramos para que a causa da beatificação de Pio 12 prossiga e tenha uma conclusão feliz", declarou.
Numa resposta dirigida aos detratores de Pio 12, que criticam o antigo papa pelo seu silêncio diante da Shoah, Bento 16 apresentou um extenso elenco de argumentos destinado a justificar esta discrição, durante a sua tradicional pregação da quinta-feira, e disse lamentar que o "debate histórico" a respeito desta questão nem sempre tivesse sido "sereno". "Em muitos casos, foi em meio ao segredo e ao silêncio que ele agiu. Porque justamente, à luz das situações concretas que refletiam a complexidade daquele momento histórico, ele tivera a intuição de que seria tanto e somente dessa maneira que o pior poderia ser evitado, e que o maior número possível de judeus poderia ser salvo", argumentou o papa.
Bento 16 também lembrou as "numerosas e unânimes manifestações de reconhecimento" que o Vaticano recebeu por parte de lideranças judaicas depois da guerra e por ocasião da morte de Pio 12.
O pontificado deste papa e a sua possível beatificação continuam sendo um objeto de discórdia entre a Igreja católica e a comunidade judaica. Tirando proveito da oportunidade rara e histórica de poder expressar-se perante um sínodo de bispos católicos, na segunda-feira, 6 de outubro, o grande rabino de Haifa (Israel), Shear Yashuv Cohen sublinhou a impossibilidade para o povo judaico "de esquecer e de perdoar" a atitude "de grandes dirigentes religiosos" durante a Shoah.
Em abril de 2007, o núncio apostólico em Israel já havia se recusado a participar de uma comemoração no memorial Yad Vashem de Jerusalém, por considerar equivocada a apresentação que havia sido feita das ações de Pio 12 durante a guerra. A análise completa daquela época pelos historiadores permanece até hoje na dependência da abertura da totalidade dos arquivos do Vaticano que lhe dizem respeito.
Quanto ao processo de beatificação, ele ainda continua à espera da assinatura, por parte de Bento 16, do decreto relativo à "heroicidade das virtudes" de Pio 12, que foi reconhecida em maio pela congregação para a causa dos santos. Depois disso, será então necessário atribuir-lhe um "milagre". E, por fim, um segundo milagre deverá ser reconhecido e lhe ser imputado para que Pio 12 possa finalmente ser declarado "santo".
Tradução: Jean-Yves de Neufville