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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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quinta-feira, 31 de julho de 2008

O Pacto da Memória: Interpretação e Identidade na Fonte Bíblica (Cláudia Andréa Prata Ferreira)

FERREIRA, Cláudia Andréa Prata. O pacto da memória: interpretação e identidade na fonte bíblica. Revista Mirabilia - Revista Eletrônica de História Antiga e Medieval - ISSN 1676-5818. Revista Mirabilia 3 - dezembro de 2003 - Artigo 4 - 13 páginas.
Resumo:
Interpretação das fontes bíblica e talmúdica na Tradição Judaica. Compreendemos os textos bíblico e talmúdico como sendo um projeto de construção da memória. Essa memória, construída literariamente a partir de uma tradição oral e escrita, evidencia uma relação singular entre o humano e o divino e procura legitimar em seu discurso a idéia de uma Religião e Tradição do Livro. Essa memória constitui, então, o elemento essencial no projeto de construção da identidade individual ou coletiva do Povo do Livro (em hebraico, Am Ha'Sefer). Estabelecemos a relação memória e religião tendo como elemento central a palavra hebraica zikaron "lembrança, memória". A originalidade do presente projeto é elencar um conjunto de elementos nos quais se articulam a construção e formação da identidade e memória no Judaísmo tendo como referencial as fontes judaicas, em particular, as produzidas em língua hebraica. Memória, Linguagem e discurso na narrativa, interpretando o caso específico da narrativa hebraica bíblica e a narrativa talmúdica: privilegiamos as fontes bíblica e talmúdica, pilares da fé judaica.

Tradição e transmissão: a questão da interpretação na tradição judaica (Cláudia Andréa Prata Ferreira)

FERREIRA, Cláudia Andréa Prata. “Tradição e transmissão: a questão da interpretação na tradição judaica”. Porto Alegre, RS: Federação Israelita do Rio Grande do Sul (FIRGS), 20/10/2006.
Como entendemos a relação entre tradição e memória? Entendemos a Tradição como uma forma de memória coletiva transmitida de uma geração para outra (em hebraico ledor vador "de geração a geração"). A Tradição é a memória da experiência vivencial de cada geração com o que lhe foi transmitido em confronto com as especificidades de seu tempo e lugar.
Em hebraico, a palavra para Tradição é massoret, que significa, literalmente, transmissão. O vocábulo latino traditio significa "ato de transmitir", "transmissão de conhecimentos".>>> Leia mais, clique aqui.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Evangelhos são obra de autores desconhecidos, dizem pesquisadores

Atribuição a Mateus, Marcos, Lucas e João provavelmente aconteceu de forma tardia. Com exceção do texto joanino, relatos parecem ter se baseado fortemente em Marcos.

Reinaldo José Lopes
Do G1, em São Paulo, em 28/07/2008.

Os Evangelhos do Novo Testamento, quatro relatos sobre a vida de Jesus aceitos por todas as igrejas cristãs, tradicionalmente são atribuídos a dois dos Doze Apóstolos (Mateus e João, filho de Zebedeu), a um companheiro do apóstolo Pedro (Marcos) e a um colaborador de São Paulo (Lucas). Para os atuais estudiosos da Bíblia, no entanto, o mais provável é que nenhuma dessas autorias tradicionais esteja totalmente correta. Embora muitos dos fatos contados pelos evangelistas possam realmente remontar à vida de Jesus, inconsistências e contradições deixam claro que nenhum de seus discípulos originais sentou-se pessoalmente para escrever uma biografia de Cristo.

"O que está claro é que os títulos que temos são um fenômeno editorial, que veio mais tarde", resume Luiz Felipe Ribeiro, professor de pós-graduação em história do cristianismo antigo da Universidade de Brasília (UnB), que está concluindo seu doutorado na Universidade de Toronto (Canadá). "Os títulos demoraram para aparecer no corpo do texto. Os primeiros papiros com a fórmula atual para os títulos -- 'Evangelho segundo Marcos' ou 'Evangelho segundo João', por exemplo -- são de meados do século 3 [mais de 150 anos depois da data em que os textos teriam sido escritos]."

De acordo com Ribeiro, os estudos sobre como os livros da época recebiam seus títulos e atribuições de autoria também revelam que essa fórmula (envolvendo uma estrutura gramatical do grego conhecida como acusativo) é curiosamente única dos Evangelhos; nenhum copista anterior teria pensado em falar da "Ilíada segundo Homero", por exemplo. "É muito improvável que essa mesma maneira de designar os textos surgisse de forma independente em quatro deles ao mesmo tempo. Por isso, tudo indica que se trata de uma mudança na maneira como os Evangelhos passaram a circular naquela época", diz ele.

Testemunho antigo -- ou não?
O fato é que, além dos títulos explícitos em papiros, a primeira referência a quatro Evangelhos escritos pelos autores que conhecemos tradicionalmente -- Mateus, Marcos, Lucas e João, nessa ordem -- vem do bispo Ireneu de Lyon, escrevendo por volta do 190. No começo do mesmo século, outro bispo, Papias (cuja obra original não sobreviveu, mas acabou sendo citada por escritores cristãos posteriores), menciona apenas Mateus e Marcos.

A poucas décadas de "distância" dos apóstolos originais, Papias até parece dispor de informações mais confiáveis, mas uma série de coisas em suas afirmações não batem. Primeiro, ele parece se referir a Mateus como uma simples coleção de ditos de Jesus (logia, em grego), escritos originalmente em aramaico, a língua do dia-a-dia na Palestina do século 1. No entanto, Mateus é na verdade uma narrativa, e o texto que temos parece ter sido composto diretamente em grego. Já Marcos seria o secretário ou intérprete de Pedro, o qual teria anotado ("de forma desordenada", diz Papias), as pregações do líder dos apóstolos em Roma.

Além do fato de, na verdade, o Evangelho de Marcos ser uma narrativa altamente estruturada, sem sinal de desordem, ele não parece o tipo de coisa que um ex-colaborador de Pedro escreveria, afirma Ribeiro. "Existe, na verdade, uma hostilidade grande em relação a Pedro no Evangelho de Marcos, e talvez até uma rejeição de todos os Doze, que são retratados como covardes", diz o pesquisador. Todos os Evangelhos mostram Pedro vacilando e até negando Jesus, mas enquanto Mateus atenua isso com a famosa cena em que Jesus promete a seu apóstolo "as chaves do Reino do Céu", Marcos não apenas omite qualquer menção a isso como é bem provável que, originalmente, nem mostrasse Jesus aparecendo aos apóstolos depois de ressuscitar.

É que os mais antigos manuscritos do Evangelho de Marcos terminam de forma meio abrupta, no versículo 8 do capítulo 16. O relato se encerra com Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé -- três seguidoras de Jesus -- indo ao sepulcro de Cristo. Lá, porém, encontram a tumba aberta e um misterioso rapaz de roupas brancas (talvez um anjo) dizendo que Jesus tinha ressuscitado. As mulheres, então, fogem assustadas, "e nada diziam a ninguém, porque temiam". O mais provável é que, mais tarde, foram adicionados os versículos de 9 a 20, que encerram o Evangelho que temos hoje e contêm as aparições do Jesus ressuscitado a seus seguidores.

Marcos, o primeiro
Na verdade, apesar de a ordem dos Evangelhos nas Bíblias atuais começar com Mateus, Marcos é quase certamente o mais antigo de todos os textos, talvez escrito um pouco antes do ano 70, quando o Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos. O consenso entre os estudiosos é que Mateus e Lucas usaram Marcos como a base de seus próprios Evangelhos.

"Ambos se baseiam na estrutura narrativa de Marcos; Mateus e Lucas foram aumentados acrescentando-se a Marcos extratos de uma coletânea de ditos de Jesus que hoje está perdida", escreve Geza Vermes, professor emérito de estudos judaicos da Universidade de Oxford, em seu livro "Quem é quem na época de Jesus" (Editora Record), recém-lançado no Brasil. "Quando Lucas e Mateus concordam entre si a respeito de algo, também concordam com Marcos; quando são diferentes de Marcos, também são diferentes entre si", diz Ribeiro.

Além disso, Marcos é o evangelista que mais coloca expressões aramaicas na boca de Jesus ou das pessoas que entram em contato com ele, como o uso de Éfata ("abre-te") para curar um surdo-mudo e Talitha cum ("menina, levanta-te") para ressuscitar uma menina. "É o único evangelista que permite ao leitor ouvir um eco eventual das palavras de Jesus em sua própria língua", diz Vermes.

Judeus ou pagãos?
Por essas e outras, a identificação do autor de Evangelho de Marcos como pagão de nascimento -- e mesmo de Lucas ou João, autores de narrativas que parecem muito influenciadas pela cultura grega -- não é tão confiável quanto alguns estudiosos costumavam imaginar. "Eu, por exemplo, acho que Marcos poderia muito bem ter uma origem na Galiléia", diz Ribeiro. "De modo geral, essa dicotomia cultural muito forte entre judeus e pagãos de origem grega que a gente costuma imaginar é relativa. O judaísmo estava sob forte influência helenística fazia tempo."

A influência judaica mais clara é a de Mateus, texto talvez escrito entre os anos 80 e 90 e repleto de referências à Lei de Moisés e às profecias do Antigo Testamento sobre a vinda do Messias. "Mas, mesmo no caso de Lucas, há um lado judaico bastante forte. A narrativa dele começa e termina no Templo de Jerusalém, por exemplo. Jesus nunca pisa fora do território de Israel na narrativa de Lucas. Isso não me parece à toa", diz Vilson Scholz, professor de teologia exegética da Universidade Luterana do Brasil (RS) e consultor de traduções da Sociedade Bíblica do Brasil.

Scholz diz acreditar que, embora figuras como os apóstolos João e Mateus não tenham escrito pessoalmente os Evangelhos, é possível que as narrativas sejam obra de pessoas de "escolas" ligadas a eles, que teriam transmitido a tradição oral relacionada aos primeiros discípulos em forma escrita. Para Scholz, o Evangelho de Lucas, escrito pelo mesmo autor dos Atos dos Apóstolos (em ambos os casos a obra é dedicada a um patrono conhecido como Teófilo, e há remissões entre um livro e outro), é o que tem associação mais plausível com o autor tradicional.

Explica-se: Lucas teria sido um médico de origem grega e, de fato, sua linguagem é uma das mais polidas e de estilo cuidadoso entre os Evangelhos, diz Scholz. Os Atos dos Apóstolos também usam o pronome "nós" em certas passagens, dando a entender que o narrador estava viajando junto com Paulo. "Eu já acho que Lucas é tão problemático [como autor verdadeiro do Evangelho] quanto os demais", afirma Ribeiro. Ele lembra que há diferenças consideráveis entre o relacionamento de Paulo com os demais membros da Igreja como é retratado em Atos e a maneira como Paulo fala de Pedro e dos demais apóstolos em suas cartas -- nesse caso, Paulo é bem mais agressivo e menos condescendente em suas críticas aos seguidores originais de Jesus.

Testemunhas oculares
Um detalhe que solapa, ao menos à primeira vista, a idéia de que alguns dos autores do Evangelho presenciaram as pregações de Jesus é a falta de uma identificação de quem escreve no próprio texto, ou mesmo de afirmações diretas de que o escritor viu tais e tais fatos acontecerem. "Isso pode ser apenas um detalhe de gênero literário -- uma tentativa de demonstrar objetividade, por exemplo", pondera Scholz.

A única exceção é o Evangelho de João -- justamente o "estranho no ninho" entre os quatro textos aceitos no Novo Testamento, por não seguir a mesma linha básica de narrativa dos outros três e apresentar uma visão teológica muito desenvolvida e elevada de Jesus, considerado o Verbo de Deus encarnado. Com base nisso, ele seria o texto mais tardio, escrito por volta do ano 100. "Muita gente vê influência da filosofia grega sobre João, mas a divisão clara do mundo entre luz e trevas, que a gente vê nele, já aparece nos Manuscritos do Mar Morto, a poucos quilômetros de Jerusalém", diz Scholz. Em um ou dois trechos, o Evangelho de João diz que "a testemunha viu" os fatos narrados acontecerem.

"Eu acho possível que esse Evangelho remonte a uma testemunha ocular, mas o que ela viu foi retrabalhado pela comunidade à qual ela pertencia", avalia Ribeiro. Seria o misterioso "discípulo amado" de Jesus -- mas esse discípulo certamente não é João, o qual é mencionado separadamente no mesmo Evangelho. "Também vemos uma tensão política entre a comunidade desse discípulo amado e o grupo que seguia Pedro, por exemplo", diz o pesquisador, lembrando que, numa das narrativas sobre o sepulcro vazio de Jesus, Pedro e o tal discípulo correm até a tumba, mas o discípulo amado é o primeiro a chegar. Pedro entra no sepulcro e vê os lençóis que cobriam o corpo de Jesus; o discípulo amado entra depois, "e viu, e creu", diz o Evangelho. Seria uma forma de mostrar a precedência dele sobre Pedro.

No fundo, o que se sabe de seguro sobre os escritores dessas quatro obras-primas da cristandade primitiva está mesmo embutido no próprio texto -- e, como tal, sujeito a interpretações. É muito difícil, por enquanto, colocar uma "cara" nos evangelistas. "Enquanto não houver outras descobertas arqueológicas de peso, ficamos nesse impasse", diz Scholz.


segunda-feira, 28 de julho de 2008

Misticismo em la tradición Abrahámica: um encuentro Judeu-Cristiano-Musulmán

II Seminário História, Memória e Literatura Bíblica

II Seminário História, Memória e Literatura Bíblica

De 24 a 26 de novembro de 2008
UERJ, Pavilhão João Lyra Filho
Auditório 91-A, RAV 94.

As inscrições estarão abertas a partir de 1 de agosto a 30 de setembro (2008).

Valores: R$ 10,00 para assistentes, R$20,00, expositores.

Solicita-se encaminhar resumo de 10 a 20 linhas onde conste o título da comunicação e a instituição onde a pesquisa é desenvolvida. As comunicações devem ser originais e inéditas.

Inscrições para ouvintes podem ser feitas on line, clicando aqui!!

Propostas de comunicações podem também ser feitas on line, clicando aqui!!

sábado, 26 de julho de 2008

Blogs: Estudos Judaicos - Estudos Bíblicos - Língua Hebraica - História das Religiões e Religiosidades

Estudos Bíblicos
Espaço dedicado aos temas relacionados aos Estudos Bíblicos.
http://www.panoramabiblico.blogspot.com/

Estudos Judaicos
Espaço dedicado aos temas relacionados aos Estudos Judaicos.
http://www.estudosjudaicos.blogspot.com/

História das Religiões e Religiosidades
Estudo comparado e abordagem interdisciplinar da história das religiões, crenças, manifestações e idéias religiosas.
http://www.religioesereligiosidades.blogspot.com/

Língua Hebraica
Espaço dedicado aos estudos relacionados ao idioma hebraico.
http://www.linguahebraica.blogspot.com/

O Livro e a Leitura como Ritual Religioso (Cláudia Andréa Prata Ferreira)

O Livro e a Leitura como Ritual Religioso (Cláudia Andréa Prata Ferreira)
Resumo: Estudo da construção e formação da identidade e memória no Judaísmo tendo como base o texto bíblico. O material bíblico é o referencial para refletirmos sobre a memória, Linguagem e discurso na narrativa. Essa memória, construída literariamente a partir de uma tradição oral e escrita, evidencia uma relação singular entre o humano e o divino e procura legitimar em seu discurso a idéia de uma Religião e Tradição do Livro.
Com um corpus textual definido pela canonização, a leitura pública do material bíblico e o seu trabalho de cópia e transmissão faz surgir uma nova etapa do Pacto da Memória, entrando em cena os rabinos, sábios, estudiosos da fonte bíblica que no intuito de continuar o dever da lembrança e procurando o sentido desse texto, geram um novo tipo de material denominado genericamente de fonte talmúdica, um vasto campo de literatura rabínica que se dedica a interpretar, à luz de sua época, o texto bíblico. Os tradutores e a difusão das religiões e transmissão dos valores culturais: um papel determinante na evolução das sociedades e na vida intelectual. O Livro / Bíblia e a leitura nas comunidades judaicas: o espaço sagrado e o espaço urbano. O estudo e a leitura como ritual religioso. Judaísmo: a palavra escrita e oral, da Antigüidade aos tempos modernos. >>> Leia mais, clique aqui.

Poesia-palavra e narrativa bíblica (Cláudia Andréa Prata Ferreira)

Poesia-palavra e narrativa bíblica (Cláudia Andréa Prata Ferreira)
Compreendemos a construção e formação da identidade e memória no Judaísmo tendo como base o texto bíblico. Para tal, realizamos um estudo da formação do texto bíblico. Cabe ressaltar que a Bíblia Hebraica, Tanach, constitui a pedra fundamental da cultura, do pensamento e da prática judaica, e toda a literatura judaica subseqüente consiste, em grande escala, em comentários a seu respeito.

Leia mais:

Paulo de Tarso e o Judaísmo no contexto dos estudos sobre o fenômeno do helenismo (Mônica Selvatici)

Paulo de Tarso e o Judaísmo no contexto dos estudos sobre o fenômeno do helenismo (Mônica Selvatici)
Um estudo formal sobre o fenômeno do ‘helenismo’ começa em meados do século XIX, quando o historiador alemão J. G. Droysen define, pela primeira vez, a época helenística em termos eruditos e cunha o próprio termo ‘Hellenismus’. Este passava, então, a significar a fusão de culturas que se seguiu às conquistas de Alexandre. Esta noção os antigos não reconheceriam em seu tempo embora o verbo hellenízein fosse já usado por Aristóteles para se referir ao domínio/mestria da língua grega e o próprio termo hellenismós (em sua forma nominal) dotado do mesmo sentido seja atribuído a Teofrastes, discípulo do filósofo (COLLINS & STERLING, 2001: 2). Além disso, o uso mais genérico do termo para se referir à cultura e costumes gregos ocorre pela primeira vez já no segundo livro dos Macabeus, onde é afirmado que a construção do ginásio em Jerusalém pelo sumo sacerdote Jasão levou a ‘um extremo de helenismo’ (acmé tis hellenismou). O uso do termo em 2Macabeus diz respeito especificamente à noção da cultura grega como algo estranho ao Judaísmo. Segundo J. J. Collins e G. E. Sterling, “este foi o significado da palavra ‘helenismo’ até o trabalho de Droysen” (2001: 2). >>> Leia mais em Hélade 3 (1), 2002: 34-44 - ISSN 1518-2541

Veja mais:
Os judeus helenistas e a primeira expansão cristã

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Juventude brasileira é religiosa

Jornal do Brasil, Vida, Saúde & Ciência, página 24, em 25/07/2008.

Juventude brasileira é religiosa
Pesquisa revela que apenas 4% se consideram ateus

Joana Duarte

O Brasil ficou em terceiro lugar em estudo sobre os países com os jovens mais religiosos do mundo, segundo o instituto alemão Ber­telsmann Stiftung, que percorreu 21 países e entrevistou 21 mil jovens entre 18 e 29 anos para produzir o mais extenso e detalhado levan­tamento comparativo sobre a im­portância da religião nas principais culturas globais.

- Os brasileiros em geral têm uma visão encantada da religião herdada dos negros e índios - res­saltou o teólogo Leonardo Boff. - Temos uma cultura mística e fluida mais do que religiosa por si. Isso confere um certo encantamento com o mundo. No Brasil, tudo acaba em Deus.

A Indonésia e o Marrocos, países de maioria muçulmana, empataram com o Brasil, que só perdeu para a Nigéria, em primeiro lugar, e a Guatemala, em segundo.

De acordo com a pesquisa, 65° o dos jovens brasileiros são "profun­damente religiosos", embora só um terço dos entrevistados vivam de acordo com preceitos dogmáticos ou achem necessário seguir man­damentos de alguma religião.

- Não somos um povo fun­damentalista, dogmático e que faz guerra religiosa- afirma Boff.

Tradição
O teólogo explica que os bra­sileiros herdaram dois tipos de cris­tianismo: o catolicismo devocionista, moderno e muito focado nas festas aos santos e na adoração direcionada às manifestações de Deus, e um catolicismo "romanizado", centra­lizado no papa e repleto de doutrinas e ritos. Segundo Boff, no Brasil, os dois coexistem em harmonia.

Entre os jovens entrevistados no Brasil, apenas 4% afirmam não ter religião, enquanto na escala global, 13% não acreditam em Deus, de acordo com a pesquisa. Boff acredita que a fé está em alta, mas que a tendência é esse nú­mero permanecer baixo.

- Acredito que a descrença deve ser respeitada, pois a fé é uma opção - afirmou o teólogo. - Até porque muitas vezes o ateísmo das pessoas é um ateísmo ético. Não é que vale tudo, pode tudo.

Entre os 21 países pesquisados, o estudo indica que quatro entre cinco jovens são religiosos, en­quanto quase a metade são pro­fundamente religiosos.

Israel é o único onde os jovens são mais religiosos do que os adul­tos, de acordo com a pesquisa.

- Israel é um Estado novo, feito por judeus que não viviam a religião porque tiveram de escondê-la - sugere Boff. - Entretanto, para os jovens, a religião se mistura com a identidade nacional e o Velho Tes­tamento é livro fundador.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Soter rejeita Projetos de Lei de regulamentação da profissão de teólogos

CNBB – Notícias, em 23/07/2008 - Em nota pública, divulgada no dia 9 de julho, a Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (Soter) rejeitou os Projetos de Lei 114/2005 e 2407/07, que tratam da regulamentação da profissão de teólogos. Em tramitação no Senado Federal e na Câmara dos Deputados, o primeiro projeto é de autoria do senador Marcelo Crivella e o segundo, do deputado Victorio Galli.

“Os dois projetos ferem frontalmente a liberdade religiosa e o princípio constitucional de separação Igreja e Estado”, diz a nota. “Cabe às diferentes tradições religiosas e não ao Estado definir quem é em cada uma delas Teólogo e Teóloga”, afirmam os teólogos.

Fundada em 1985 por um grupo de teólogos católicos, a Soter conta com mais de 500 associados em todo o país. Tem como presidente o professor Afonso Maria Ligório Soares. O padre Benedito Ferraro ocupa a vice-presidência e a teóloga Ivanete Dal Farra é a secretária.

Leia, abaixo, a íntegra da nota.

Nota Pública contra Projetos em tramitação na Câmara e no Senado
A SOTER, Sociedade Civil fundada em 1985, que congrega hoje 550 associados de diversas regiões do Brasil, em sua grande maioria profissionais inseridos em Instituições de Ensino Superior e Programas de Pós-graduação reconhecidos pela CAPES/MEC, vem a público posicionar-se em relação aos projetos de lei PLS 114/2005 e PLS 2407/07 em tramitação no Senado Federal e na Câmara dos Deputados.

1. Os dois projetos ferem frontalmente a liberdade religiosa e o princípio constitucional de separação Igreja e Estado; Cabe às diferentes tradições religiosas e não ao Estado definir quem é em cada uma delas Teólogo e Teóloga. A regulamentação da profissão transferiria ao Estado ou a uma autarquia federal o poder de definir quem é e quem pode exercer essa profissão e ministério.

2. Por outro lado, o reconhecimento civil dos diplomas de teologia já em vigor e que tem sido apoiado por nossa Sociedade dá suficiente espaço à liberdade religiosa, sendo uma opção possível não impositiva que oferece suficientes garantias legais aos seus portadores.

3. O reconhecimento civil do diploma não implica necessariamente regulamentação da profissão. Inúmeras profissões têm diplomas reconhecidos e não estão regulamentadas (filósofos, sociólogos, historiadores, físicos, matemáticos, etc).

Por essas razões, julgamos os dois projetos de Lei não apenas inconvenientes, mas nocivos aos profissionais de teologia.

Também aproveitamos a oportunidade para declarar que a Diretoria da Soter e seus 550 associados não apóiam nem reconhecem a organização que vem sendo chamada de “Conselho Federal de Teólogos”. Tal “Conselho” não tem respaldo de nossa entidade nem das principais Universidades e Programas de Pós-graduação em Teologia do país.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

The Blemished Body: Deformity and Disability in the Qumran Scrolls

The Blemished Body: Deformity and Disability in the Qumran Scrolls
Johanna Dorman
Reviewed by T. M. Lemos
Reviewed by Jeremy Schipper

Review by T. M. Lemos
Read the Review

Published 7/12/2008
Citation: T. M. Lemos, review of Johanna Dorman, The Blemished Body: Deformity and Disability in the Qumran Scrolls, Review of Biblical Literature [http://www.bookreviews.org] (2008).

Review by Jeremy Schipper
Read the Review
Published 10/27/2007
Citation: Jeremy Schipper, review of Johanna Dorman, The Blemished Body: Deformity and Disability in the Qumran Scrolls, Review of Biblical Literature [http://www.bookreviews.org] (2007).

Bíblia mais antiga do mundo ganha versão para a internet

Escrito em grego antigo, documento é um dos maiores da Antigüidade

Deutsche Welle, em 22/07/2008 - Projeto da Universidade de Leipzig colocará na internet todas as 390 páginas conhecidas do Codex Sinaiticus. Projeto faz parte de uma parceria entre as instituições que abrigam o pergaminho.

A partir desta quinta-feira (24/07) o mais antigo manuscrito da Bíblia contará com uma versão para leitura on-line, informou esta semana a biblioteca da Universidade de Leipzig. O pergaminho, conhecido como Codex Sinaiticus, estará disponível no site www.codex-sinaiticus.net.

A princípio serão disponibilizados na internet apenas os trechos pertencentes à biblioteca da instituição e também algumas folhas que formam o Velho Testamento e que fazem parte do acervo da Biblioteca Britânica, situada em Londres. Até 2009 é previsto que todas as 390 páginas do documento – o Novo Testamento completo e metade do Velho Testamento – estejam dispostas na internet.

Um texto impresso e uma edição fac-símile também estão nos planos do projeto que envolve as quatro instituições que abrigam partes da Bíblia: a Universidade de Leipzig, a Biblioteca Britânica, a Biblioteca Nacional da Rússia, em São Petersburgo, e o Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, Egito, local onde o documento foi encontrado.

O Codex Sinaiticus é datado da metade do século 4º e foi descoberto em 1844 pelo teólogo alemão Konstantin von Tischendorf num cesto de lixo do próprio mosteiro, pronto para ser queimado com outros papéis classificados como sem importância.

Tischendorf recebeu permissão dos monges para levar apenas 43 das 129 páginas a Leipzig. Mas, em 1859, com o patrocínio do imperador russo Alexandre 2º, retornou ao mosteiro em busca de outros fragmentos do pergaminho e convenceu os monges a presentear o imperador com as partes então encontradas.

Em 1933, 347 folhas foram vendidas pela então União Soviética ao Museu Britânico. E 42 anos depois, em 1975, durante um trabalho de restauração, monges acharam mais 38 fragmentos, ainda em posse do mosteiro. Cerca de 300 folhas contendo partes do Velho Testamento nunca foram encontradas.

Disposto em quatro colunas, o pergaminho foi escrito em grego antigo e é considerado um dos maiores da Antigüidade, com dimensões de 33,5 cm de largura por 37,5 cm de altura.

De acordo com o projeto, a versão digital do Codex Sinaiticus irá além da simples apresentação textual de seu conteúdo, escrito à mão, em letras maiúsculas, sem espaços entre as palavras ou ilustrações. O público terá a possibilidade de folhear as páginas de forma interativa, podendo, além de aumentar o tamanho das letras, conferir a versão em seu idioma original ou ler a tradução de trechos selecionados para o inglês e o alemão.

Veja mais:

terça-feira, 22 de julho de 2008

Approaching Yehud: New Approaches to the Study of the Persian Period

Approaching Yehud: New Approaches to the Study of the Persian Period
Jon L. Berquist, ed.
Reviewed by Armin Siedlecki.

Description: The long-held view that the Persian period in Israel (known as Yehud) was a historically derivative era that engendered little theological or literary innovation has been replaced in recent decades by an appreciation for the importance of the Persian period for understanding Israel´s literature, religion, and sense of identity. A new image of Yehud is emerging that has shifted the focus from viewing the postexilic period as a staging ground for early Judaism or Christianity to dealing with Yehud on its own terms, as a Persian colony with a diverse population. Taken together, the thirteen chapters in this volume represent a range of studies that touch on a variety of textual and historical problems to advance the conversation about the significance of the Persian period and especially its formative influence on biblical literature.
Subjects: Methods, Historical Approaches, History, Persian Period

Review by Armin Siedlecki
Read the Review
Published 7/12/2008
Citation: Armin Siedlecki, review of Jon L. Berquist, ed., Approaching Yehud: New Approaches to the Study of the Persian Period, Review of Biblical Literature [http://www.bookreviews.org] (2008).


domingo, 20 de julho de 2008

Liturgia Judaica - Oração Judaica - Shemá Israel

Anne-Catherine Avril

Nostra Aetate

Pierre Lenhardt

Veja mais:

Leituras:

  • ARANDA PÉREZ, Gonzalo et alii. Literatura judaica intertestamentária. Trad. Mário Gonçalves. São Paulo: Ave-Maria, 2000.
  • KETTERER, Eliane; REMAUD, Michel. O midraxe. Trad. Maria C.de M.Duprat. São Paulo: Paulus, 1996.
  • LENHARDT, Pierre; COLLIN, Matthieu. Evangelho e tradição de Israel. Trad. M.Cecília de M.Duprat. São Paulo: Paulus, 1994.
  • ______. A Torah Oral dos Fariseus. Trad. Nadyr de S.Penteado. São Paulo: Paulus, 1997.
  • LIMENTANI, Giacoma. O Midraxe. Como os mestres judeus liam e viviam a Bíblia. Trad. Bertilo Brod. São Paulo: Paulus, 1998.
  • PONTIFÍCIA Comissão Bíblica. O Povo Judeu e as suas Sagradas Escrituras na Bíblia Cristã. São Paulo: Paulinas, 2001.
  • TREBOLLE BARRERA, Julio. A Bíblia judaica e a Bíblia cristã: introdução à história da Bíblia. Trad. Ramiro Mincato. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

Deus bíblico pode ser fusão de vários deuses pagãos, dizem especialistas

Personalidade e atributos de Javé são compartilhados com outras divindades do Oriente. Pai celestial El, jovem guerreiro Baal e até 'senhora' Asherah teriam sido influências.

Reinaldo José Lopes Do G1, em São Paulo, em 20/07/2008.

A afirmação pode soar desrespeitosa para judeus ou cristãos, mas não está muito longe da verdade: Javé, o Deus do Antigo Testamento, parece ter múltiplas personalidades. Para ser mais exato, especialistas que estudam os textos bíblicos, lêem antigas inscrições encontradas nos arredores de Israel ou escavam sítios arqueólogicos estão reconhecendo a influência conjunta de diversos deuses pagãos antigos no retrato de Javé traçado pela Bíblia.

A idéia não é demonstrar que o Deus bíblico não passa de mais um personagem da mitologia. Os pesquisadores querem apenas entender como elementos comuns à cultura do antigo Oriente Próximo, e principalmente da região onde hoje ficam o estado de Israel, os territórios palestinos, o Líbano e a Síria, contribuíram para as idéias que os antigos israelitas tinham sobre os seres divinos. As conclusões ainda são preliminares, mas há bons indícios de que Javé é uma fusão entre um deus idoso e paternal e um jovem deus guerreiro, com pitadas de outras divindades – uma delas do sexo feminino.

O ponto de partida dessas análises é o fundo cultural comum entre o antigo povo de Israel e seus vizinhos e adversários, os cananeus (moradores da terra de Canaã, como era chamada a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo em tempos antigos). A Bíblia retrata os israelitas como um povo quase totalmente distinto dos cananeus, mas os dados arqueólogicos revelam profundas semelhanças de língua, costumes e cultura material – a língua de Canaã, por exemplo, era só um dialeto um pouco diferente do hebraico bíblico.

Memórias de Ugarit
Os cananeus não deixaram para trás uma herança literária tão rica quanto a Bíblia. No entanto, poucos quilômetros ao norte de Canaã, na atual Síria, ficava a cidade-Estado de Ugarit, cuja língua e cultura eram praticamente idênticas às de seus primos do sul. Ugarit foi destruída por invasores bárbaros em 1200 a.C., mas os arqueólogos recuperaram numerosas inscrições da cidade, nas quais dá para entrever uma mitologia que apresenta semelhanças (e diferenças) impressionantes com as narrativas da Bíblia. “Por isso, Ugarit é uma parte importante do fundo cultural que, mais tarde, daria origem às tribos de Israel”, resume Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale (EUA).

Uma das figuras mais proeminentes nesses textos é El – nome que quer dizer simplesmente “deus” nas antigas línguas da região, mas que também se refere a uma divindade específica, o patriarca, ou chefe de família, dos deuses. “Patriarca” é a palavra-chave: o El de Ugarit tem paralelos muito específicos com a figura de Deus durante o período patriarcal, retratado no livro do Gênesis e personificado pelos ancestrais dos israelitas: Abraão, Isaac e Jacó.

Nesses textos da Bíblia há, por exemplo, referências a El Shadday (literalmente “El da Montanha”, embora a expressão normalmente seja traduzida como “Deus Todo-Poderoso”), El Elyon (“Deus Altíssimo”) e El Olam (“Deus Eterno”). O curioso é que, na mitologia ugarítica, El também é imaginado vivendo no alto de uma montanha e visto como um ancião sábio, de vida eterna.

Tal como os patriarcas bíblicos, El é uma espécie de nômade, vivendo numa versão divina da tenda dos beduínos; e, mais importante ainda, El tem uma relação especial com os chefes dos clãs, tal como Abraão, Isaac e Jacó: eles os protege e lhes promete uma descendência numerosa. Ora, a maior parte do livro do Gênesis é o relato da amizade de Deus com os patriarcas israelitas, guiando suas migrações e fazendo a promessa solene de transformar a descendência deles num povo “mais numeroso que as estrelas do céu”.

Israel ou “Israías”?
Outros dados, mais circunstanciais, traçam outros elos entre o Deus do Gênesis e El: num dos trechos aparentemente mais antigos do livro bíblico, Deus é chamado pelo epíteto poético de “Touro de Jacó” (frase às vezes traduzida como “Poderoso de Jacó”), enquanto a mitologia ugarítica compara El freqüentemente a um touro. Finalmente, o próprio nome do povo escolhido – Israel, originalmente dado como alcunha ao patriarca Jacó – carrega o elemento “-el”, lembra Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP).

“É o nome do deus cananeu, mais um indício de que Israel surge dentro de Canaã, por um processo gradual”, diz Silva. Ele argumenta que, se Javé fosse desde sempre a divindade dos israelitas, o nome desse povo seria “Israías”. Isso porque o elemento adaptado como “-ías” em português (algo como -yahu) era, em hebraico, uma forma contrata do nome “Javé”. Curiosamente, o elemento se torna dominante nos chamados nomes teofóricos (ligados a uma divindade) dados a israelitas no período da monarquia, a partir dos séculos 10 a.C. e 9 a.C.

E esse nome (provavelmente Yahweh em hebraico; a sonoridade original foi obscurecida pelo costume de não pronunciar a palavra por respeito) é um enigma e tanto. As tradições bíblicas são um tanto contraditórias, mas pelo menos uma fonte das Escrituras afirma que Javé só deu a conhecer seu verdadeiro nome aos israelitas quando convocou Moisés para ser seu profeta e arrancar os descendentes de Jacó da escravidão no Egito. (A Moisés, Deus diz que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó como “El Shadday”.) O problema é que ninguém sabe qual a origem de Javé, o qual nunca parece ter sido uma divindade cananéia, exatamente como diz o autor bíblico.

Senhor do deserto
A esmagadora maioria dos arqueólogos e historiadores modernos não coloca suas fichas no Êxodo maciço de 600 mil israelitas (sem contar mulheres e crianças) do Egito, por dois motivos: a semelhança entre Israel e os cananeus e a falta de qualquer indício direto da fuga. Mas muitos supõem que um pequeno componente dos grupos que se juntaram para formar a nação israelita tenha sido formado por adoradores de Javé, que acabaram popularizando o culto. Quem seriam esses primeiros javistas? Uma pista pode vir de alguns documentos egípcios, que os chamam de Shasu – algo como “nômades” ou “beduínos”.

“Duas ou três inscrições egípcias mencionam um lugar chamado 'Yhwh dos Shasu', o que, para alguns especialistas, parece ser 'Javé dos Shasu'. Talvez sim, talvez não. Não temos como saber ao certo”, diz Mark S. Smith, pesquisador da Universidade de Nova York e autor do livro “The Early History of God” (“A História Antiga de Deus”, ainda sem tradução para o português).

“É menos provável que o culto a Javé venha de dentro da Palestina e da Síria, e um pouco mais plausível que ele tenha se originado em certas regiões da Arábia”, diz Airton da Silva. Mark Smith lembra que algumas das passagens poéticas consideradas as mais antigas da Bíblia – nos livros dos Juízes e nos Salmos, por exemplo – referem-se ao “lar” de Javé em locais denominados “Teiman” ou “Paran”. Aparentemente, são áreas desérticas, apropriadas para a vida de nomadismo. “Muitos especialistas localizam essa região no que seria o noroeste da atual Arábia Saudita, ao sul da antiga Judá [parte mais meridional dos territórios israelitas]”, diz Smith.

Guerreiro divino
Seja como for, quando Javé entra em cena com seu “nome oficial” durante o Êxodo bíblico, a impressão que se tem é que ele já absorveu boa parte das características de um outro deus cananeu: Baal (literalmente “senhor”, “mestre” e, em certos contextos, até “marido”), um guerreiro jovem e impetuoso que acabou assumindo, na mitologia de Ugarit e da Fenícia (atual Líbano), o papel de comando que era de El.

Indícios dessa nova “personalidade” de Deus surgem no fato de que, pela primeira vez na narrativa bíblica, Javé é visto como um guerreiro, destruindo os “carros de guerra e cavaleiros” do Faraó e, mais tarde, guiando as tribos de Israel à vitória durante a conquista da terra de Canaã. Tal como Baal, Javé é descrita como “cavalgando as nuvens” e “trovejando”. E, mais importante ainda, uma série de textos bíblicos falam de Deus impondo sua vontade contra os mares impetuosos (como no caso do Mar Vermelho, em que as águas engolem o exército egípcio por ordem divina) ou derrotando monstros marinhos.

Há aí uma série de semelhanças com a mitologia cananéia sobre Baal, o qual derrotou em combate o deus-monstro marinho Yamm (o nome quer dizer simplesmente “mar” em hebraico) ou “o Rio” personificado. Na mitologia do Oriente Próximo, as águas marinhas eram vistas como símbolos do caos primitivo, e por isso tinham de ser derrotadas e domadas pelos deuses.

Javé também é associado à chuva e à fertilidade da terra pelos antigos autores bíblicos – atributos que aparecem entre as funções de Baal. Há, porém, uma diferença importante entre os dois deuses: outra narrativa de Ugarit fala do assassinato de Baal pelas mãos de Mot, o deus da morte, e da ressurreição do jovem guerreiro – provavelmente uma representação mítica do ciclo das estações do ano, essencial para a agricultura, já que Baal era um deus que abençoava a lavoura.

O lado guerreiro de Javé é talvez o mais difícil de aceitar para a sensibilidade moderna: quando os israelitas realizam a conquista da terra de Canaã, a ordem dada por Deus é de simplesmente exterminar todos os habitantes, e às vezes até os animais (embora, em alguns casos, os homens de Israel recebam permissão para transformar as mulheres do inimigo em concubinas).

Textos de outra nação da área, os moabitas (habitantes de Moab, a leste do Jordão) ajudam a lançar luz sobre esse costume aparentemente bárbaro. Um monumento de pedra conhecido como a estela de Mesa (nome de um rei de Moab em meados do século 9 a.C.) fala, ironicamente, de uma guerra de Mesa com Israel na qual o rei moabita, por ordem de seu deus, Chemosh, decreta o herem, ou “interdito”. E o herem nada mais é que a execução de todos os prisioneiros inimigos como um ato sagrado. Tratava-se, portanto, de um elemento cultural de toda a região.

Lado feminino
Se a “múltipla personalidade” de Javé pode ser basicamente descrita como uma combinação de El e Baal, há uma influência mais sutil, mas também perceptível, de um elemento feminino: a deusa da fertilidade Asherah, originalmente a esposa de Baal na mitologia cananéia. Normalmente, Deus se comporta de forma masculina na Bíblia, e a linguagem utilizada para falar de sua relação com os israelitas é, muitas vezes, a de um marido (Deus) e a esposa (o povo de Israel). Mas o livro bíblico dos Provérbios, bem como alguns outras fontes israelitas, apresenta a figura da Sabedoria personificada, uma espécie de “auxiliar” ou “primeira criatura” de Deus que o teria auxiliado na obra da criação do mundo.

Segundo o texto dos Provérbios, Deus “se deleita” com a Sabedoria e a usa para inspirar atos sábios nos seres humanos. Para muitos pesquisadores, a figura da Sabedoria incorpora aspectos da antiga Asherah na maneira como os antigos israelitas viam Deus, criando uma espécie de tensão: embora o próprio Deus não seja descrito como feminino, haveria uma complementaridade entre ele e sua principal auxiliar.


sábado, 19 de julho de 2008

II Congresso Internacional em Ciências da Religião – “Novas tendências na Sociologia da Religião” (UCG)

II Congresso Internacional em Ciências da Religião – “Novas tendências na Sociologia da Religião”

Período: 29, 30 e 31 de outubro de 2008, em Goiânia

Instituição: Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião – Mestrado e Doutorado – da Universidade Católica de Goiás

Apresentação

O Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião – Mestrado e Doutorado – da Universidade Católica de Goiás tem por objetivo incentivar a pesquisa e a produção científica sobre o fenômeno religioso em sua constituição epistemológica, cultural e sua significação como fato social; promover a formação científica aprofundada de docentes e pesquisadores (as) para uma melhor compreensão das formas históricas da religião e de sua interação com a cultura e as transformações sociais.

Uma das linhas de pesquisa do Programa é a investigação das interações entre Religião e Movimentos Sociais. No referido bloco pesquisam-se as instituições religiosas, os movimentos sociais e religiosos, na perspectiva da sociologia da religião e de outras disciplinas afins, priorizando a análise da relação entre as diferentes categorias sociais marginalizadas e o fenômeno religioso. Neste sentido, a realização do II Congresso Internacional em Ciências da Religião, cujo tema é “Novas tendências em sociologia da religião” apresenta-se como um meio privilegiado para o Programa concretizar seus objetivos.

O debate sobre “Novas tendências em sociologia da religião” justifica-se, uma vez que: as mudanças ocorridas no campo religioso e na sociedade; as diferentes formas pelas quais as religiões se configuram na atualidade, com suas especificidades internas; as diferentes formas em que as religiões participam da vida pública, adquirem expressão e contribuem para configurar o nosso universo social, para serem compreendidas, exigem de tal ciência uma permanente revisão de suas categorias de análise.

Analisar em profundidade os entrelaçamentos dos fenômenos religiosos com os muitos domínios da sociedade se faz necessário, uma vez que a cada dia se pode perceber mais a fragilidade das fronteiras que separam o sagrado do profano e sobretudo as constantes redefinições pelas quais estas passam. Sendo assim, necessário se faz atentar para as formas em que os princípios religiosos e laicos, em constante e recíproca fecundação, alimentam os dramas sociais correntes, temática essa com a qual se ocupam hoje pesquisadores(as) do mundo inteiro.

Objetivos

  • Discutir sobre os desafios e as contribuições que as diferentes configurações do fenômeno religioso, tanto em suas relações internas como em suas inter-relações com outras dimensões da sociedade, aportam para o campo da Sociologia da Religião;
  • Discutir sobre os temas recorrentes da Sociologia da Religião e em quais perspectivas eles são analisados;
  • Congregar pesquisadores/as de vários espaços acadêmicos, nacionais e internacionais, para apresentação de trabalhos sobre o tema;
  • Contribuir para enriquecer o debate nacional, fortalecer os projetos de parceria e cooperação internacional, dar ensejo a publicações conjuntas e à troca de pesquisadores e alunos entre as instituições conveniadas;
  • Contribuir para uma melhor inserção do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião da UCG no campo das discussões teóricas importantes da área.

O Congresso

O II Congresso Internacional em Ciências da Religião – “Novas tendências na Sociologia da Religião” – acontecerá nos dias 29, 30 e 31 de outubro de 2008, em Goiânia, ocupando três dias completos. Os convidados são estudiosos (as) e pesquisadores(as) das áreas das Ciências da Religião, da Teologia, da Antropologia, da Sociologia Religiosa e demais áreas afins. A participação de pesquisadores nacionais e internacionais irá contribuir para enriquecer o debate nacional sobre o tema; desenvolver projetos de pesquisa inter-institucionais e fortalecer os projetos de parcerias e publicações conjuntas. Calcula-se uma participação em torno de 200 participantes.

Entidade Responsável

Pela organização do Congresso e pela publicação dos textos, é responsável o Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião – Mestrado e Doutorado em Ciências da Religião da Universidade Católica de Goiás (UCG).

Equipe Organizadora

IX Semana de Estudos da Religião

O Congresso coincidirá com a realização da IX Semana de Estudos da Religião, promovida anualmente pelo Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Ciências da Religião. Com isso, pretende-se fomentar a participação dos mestrandos(as) e doutorandos(as) no Congresso através de temas relacionados com a área de Religião e sua interface com o tema do evento. A participação é aberta a todas as pessoas interessadas.

Certificados

Mediante inscrição, pagamento e participação com 75% de freqüência será conferido um certificado aos participantes e às participantes correspondentes à 34 horas.

Temática

O tema geral do II Congresso Internacional em Ciências da Religião são as novas tendências na sociologia da religião. Consideram-se como novas tendências tanto os temas privilegiados e que são recorrentes nas análises sociológicas da religião quanto os enfoques priorizados nessas análises.

Veja mais:

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Vav Hahipuch

Vav Hahipuch

Extraído de: FERREIRA, Cláudia Andréa Prata. O pacto da memória: interpretação e identidade nas fontes bíblica e talmúdica. Tese de Doutorado em Ciência da Literatura - Poética. Rio de Janeiro: UFRJ, Faculdade de Letras, 2002. p.84-86.

O hebraico bíblico forneceu o tronco, o alicerce da língua hebraica moderna. Sua contribuição manifesta-se no campo lexical e nas estruturas gramaticais: a estrutura do singular, do plural e da forma dual do substantivo, a flexão do substantivo na forma possessiva (genitivo). Forneceu as conjugações da maioria das construções verbais, bem como os tempos, ainda que não tenha conseguido expressá-los com clareza. Devemos deduzir pelo contexto se a ação ocorre no passado ou no futuro. O hebraico bíblico faz uso de um recurso denominado de vav consecutivo ou em hebraico, vav hahipuch (signo de conversão dos tempos), abolido pelo hebraico moderno.1

Cabe um comentário sobre o uso do vav hahipuch, pois o seu desconhecimento, leva a equívocos na tradução do texto bíblico. Quando a conjunção vav (e) denominada de vav consecutivo (vav hahipuch) liga os verbos, ela exerce uma função peculiar, denotando certa subordinação entre dois ou mais verbos num período.2

Caso 1
Shamar haadam et haTorá vaishbót baShabat
.
(Guardou o homem a lei e descansou no sábado).

Comentário – caso 1 - No primeiro termo [Shamar haadam et haTorá], o verbo aparece no completo (passado). A tradução normal do segundo termo [vaishbot baShabat] seria no futuro do presente (e descansará). Mas, em virtude da subordinação estabelecida pelo vav consecutivo que precede o segundo verbo, a tradução segue o tempo do primeiro ficando então: “Guardou o homem a lei e descansou no sábado”.

Caso 2
Ishmor haadam et haTorá veshavat baShabat.
(Guardará o homem a lei e descansará no sábado.)
Comentário – caso 2 - Neste caso temos o primeiro verbo no incompleto (futuro ishmor “guardará”) e o segundo no completo (passado shavat “descansou”), precedido de vav consecutivo. Em virtude da subordinação estabelecida pelo vav consecutivo, o segundo verbo é traduzido no tempo do primeiro: “Guardará o homem a lei e descansará no sábado”.
Caso 3
Shamar haadam et haTorá vaishbot baShabat veló machar.
(Guardou o homem a lei e descansou no Sábado e não vendeu.).
Comentário – caso 3 - Quando aparece na frase um advérbio de negação ou qualquer outra partícula, a subordinação desaparece nos verbos seguintes. Desta forma, o verbo que aparece após o advérbio de negação ou qualquer outra partícula, deixa de estar subordinado, voltando ao seu tempo normal na tradução.

Referências bibliográficas:
1 Ver os estudos de BEREZIN, Rifka. As origens do léxico do hebraico moderno. São Paulo: EDUSP, 1980. p.13-18; BEREZIN, Rifka. Caminhos do povo judeu. 4.ed. São Paulo: Federação Israelita do Estado de São Paulo, 1988. v.1. p.22-25; BETTENCOURT, Estêvão. Para entender o Antigo Testamento. 4 ed.ver. e atual. Aparecida: Santuário, 1990. p.9-10; CAQUOT, André. Os Semitas. In: LÉVÊQUE, Pierre. As primeiras civilizações. Trad. Antônio J.P. Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1990.v.III - Os Indo-Europeus e os Semitas. p.145-155. p.145-155.
2 MENDES, P. Noções de hebraico bíblico. Texto programado. São Paulo: Vida Nova, 1986. p.173-177.