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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 4 de abril de 2010

Lições de Páscoa

FSP (04/04/2010)

Luiz Soares Vieira: Lições de Páscoa


EXISTEM acontecimentos que marcam a vida dum povo e determinam-lhe o caminho. São principalmente fatos que despertaram em grupos, clãs ou tribos a consciência de serem todos membros de uma única nação. Poderíamos rotular esses episódios como "fundantes" de nacionalidades.


Temos um belo exemplo na história do povo de Israel, como vem narrada na Bíblia. Devido a secas em Canaã, região onde morava, uma família se transferiu para o delta do Nilo, onde cada filho de Jacó organizou seus descendentes como tribo.


Reduzidos a escravos e condenados a desaparecer devido a leis que os obrigavam a matar os recém-nascidos do sexo masculino, gritaram por socorro ao Deus de seus antepassados.


Foram ouvidos por Javé e libertados por Moisés, que os conduziu através do leito seco do mar e do areal do deserto até a terra prometida.


Foi aí que Israel se percebeu como um povo, mais ainda, um povo escolhido por Deus, um povo de pessoas livres e aliadas do Altíssimo.


A força de Israel consistiu em viver intensa e eternamente a saída do Egito, a aliança feita no Sinai e a entrada na terra das promessas. Para isso, a cada ano, na lua cheia de Abib, o primeiro mês do calendário judaico, a celebração da Páscoa foi, mais do que a lembrança do acontecimento "fundante", o compromisso de viver a liberdade, a aliança com o Senhor e o amor à "terra do povo de Deus". "Este será para vós uma festa memorável em honra do Senhor, que haveis de celebrar por todas as gerações como instituição perpétua" (Ex 12,14).


Antes da destruição do templo de Jerusalém, os cordeiros sacrificados, a reunião da família para a ceia, o ritual entremeado de leituras, de cantos e de orações tornavam presentes os fatos do êxodo. Israel nunca deveria esquecer seus inícios como povo. Do contrário, sucederia o que sucedeu na divisão do reino em dois e em seus desaparecimentos.


A igreja é o povo da nova aliança. Seu acontecimento "fundante" é a Páscoa de Jesus, sua passagem da morte para a vida. Os discípulos eram uma multidão sem rosto que acompanhava ora com entusiasmo, ora desanimada, os passos do nazareno. A expectativa de que ele seria o desejado chefe político os acompanhou até a entrada do domingo de Ramos.


Após sua prisão, debandaram e só se reagruparam após a certeza da ressurreição. O espírito de Deus lhes deu a alegria de se deixarem apossar pela força da experiência de Jesus. Foi aí que nasceu um povo, o povo dos seguidores do Senhor.


Se a Páscoa de Israel foi a libertação de escravos políticos e econômicos para transformá-los em pessoas livres, aliados de Deus e possuidores de esperanças, a Páscoa de Jesus é a libertação da causa de todas as escravidões, a elevação dos homens e mulheres à dignidade de filhos e filhas do pai celeste e herdeiros da vida eterna.


A força da igreja, povo da nova aliança, está em centralizar no ressuscitado a fonte de seu ser, de seu agir e de seu fazer. Quando os cristãos relegam a Páscoa a mero apêndice das muitas preocupações, tornam-se fracos e protagonizam escândalos que abalam ou afastam quem sente atração pelo Cristo.


Celebrar a Páscoa tanto em festa anual quanto nos domingos e nas missas diárias é uma necessidade para que o acontecimento "fundante", a morte e a ressurreição de Jesus, nos torne uma presença alegre e esperançosa dentro de uma sociedade cada vez mais marcada pela morte.


A Páscoa é um grito forte em favor da vida a ressoar neste ano que apareceu, em seus primeiros meses, marcado pela tragédia em Angra dos Reis, pelos terremotos de Haiti, Chile e Turquia, pelas enchentes ou secas em várias regiões do planeta, pelas guerras em curso, por atos de terrorismo.


A Páscoa é um grito forte em favor da liberdade a ressoar em tempos que manipulam a opinião pública, restringem direitos universalmente aceitos, distorcem valores e nos violentam o direito de expressão de pensamento. Por meio de campanhas bem urdidas, roubam-nos os espaços interiores, não nos deixam tempos e espaços para pensar. Os jovens são as grandes vítimas da falsa sensação de liberdade de pássaros presos em gaiola de ouro. O ressuscitado arrebentou as prisões quando arrebentou o sepulcro onde o colocaram morto.


A Páscoa é um grito forte em favor da esperança numa época em que desapareceram as utopias, se deixou de sonhar e o mundo ficou pequeno. "O Cristo, ressuscitado dos mortos, já não morre; a morte não tem mais poder sobre ele" (Rom 6,9).


DOM LUIZ SOARES VIEIRA, 72, arcebispo de Manaus, é vice-presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil).


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