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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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terça-feira, 12 de agosto de 2008

Viagem a Jerusalém

Um painel fotográfico e fragmentos de várias sinagogas do período bizantino (70 d.C. - 640 d.C.) montados no Masp ajudam a entender como cristãos conviveram com os judeus na Terra Santa.

Com peças do Museu de Israel, mostra no Masp recria Terra Santa e reúne evidências arqueológicas que remetem a passagens bíblicas.

SILAS MARTÍ
DA REPORTAGEM LOCAL – Folha de São Paulo, Ilustrada, em 12/08/2008.

Ele não está lá, mas tudo serve para provar que ele esteve, de fato, entre nós. Em uma mostra candidata a "blockbuster", o Masp montou uma réplica da Terra Santa no subsolo. São cerca de cem peças do Museu de Israel, de Jerusalém, muitas delas evidências arqueológicas de momentos da era cristã narrados na Bíblia. Estão reunidas em uma exposição que será aberta amanhã para o público.

O período histórico coberto pela mostra, na verdade, vai bem além da vida de Cristo, passando por três momentos-chave da história de Israel e dos territórios palestinos, a chamada Terra Santa: o período israelita (1000 a.C. - 586 a.C.), o do segundo templo (538 a.C. - 70 d.C.) e o período romano ou bizantino (70 d.C. - 640 d.C.). Ao todo, são 16 séculos de história.

No primeiro momento, a mostra relembra o reinado de Davi, que começou em 1000 a.C. Uma pedra logo na entrada da exposição traz uma inscrição que menciona a dinastia que governou o reino de Judá.

Nesta ante-sala à parte mais conhecida da história, ficam objetos de culto popular, como ídolos da fertilidade, entre eles uma garrafa em forma de romã, além de capitéis e balaustradas de construções da época, com grande influência dos fenícios.

Um túnel montado no museu conduz os visitantes à sala que ilustra o chamado período do segundo templo, após a diáspora e o retorno dos judeus.

Um busto de Alexandre, com sua farta cabeleira e traços do período helênico, é o destaque desta sala. "Alexandre tentou unificar o reino com religião, filosofia, arte e administração", diz à Folha a curadora da exposição, Yael Israeli, do Museu de Israel. "Foi o início da construção da civilização ocidental."

Outros objetos ajudam a entender a rotina da época. Ossuários mostram o costume de enterrar os mortos e, num segundo sepultamento, recolher só os ossos em baús. A mostra tem ossuários de um Jesus, uma Maria e um José - não é, evidentemente, a família de Cristo, mas dá a entender que os nomes eram comuns no período retratado.

É no mesmo espaço que estão utensílios domésticos semelhantes aos que Jesus e seus apóstolos poderiam ter usado no episódio bíblico da Última Ceia. Logo ao lado, estão jarros de pedra que seriam do mesmo tipo usado por Jesus na transformação da água em vinho, narrada no Novo Testamento.

Faz-se alusão à crucificação de Cristo com evidências arqueológicas, entre elas o único indício tangível da existência de Pôncio Pilatos: uma pedra com uma inscrição que menciona Pilatos como o prefeito da Judéia. Foi ele quem presidiu o julgamento e condenou Jesus à morte na cruz.

Um osso de calcanhar atravessado por um prego, exposto ao lado da pedra de Pilatos, deixa claro que a crucificação era um método corrente de execução. Ainda assim, segundo o catálogo da mostra, esta é a única evidência arqueológica que prova que os executados eram, de fato, pregados na cruz.

Na última sala da exposição, a reconstituição de uma igreja cristã ao lado de fragmentos de uma sinagoga mostra que judeus e cristãos conviveram lado a lado por séculos.

Há grande semelhança, inclusive, entre igrejas e sinagogas. Nos relevos das construções judaicas, apenas substituíam a cruz por um menorá, o candelabro de sete braços dos judeus.

"Muitos dos objetos nas igrejas e sinagogas eram feitos pelo mesmo artesão", diz Israeli. "Era só dizer se queria uma cruz ou um candelabro."

16
séculos é o período histórico coberto pela mostra, dividida entre os períodos israelita (1000 a.C. a 586 a.C.), do segundo templo (538 a.C. a 70 d.C.) e bizantino (70 d.C. a 640 d.C.)

100
obras vieram do Museu de Israel, em Jerusalém, para o subsolo do Masp, onde uma espécie de réplica da Terra Santa foi erguida para a exposição que abre amanhã para o público

Comentário

Raridades surgem em seleção artificial

Objetos da mostra "Tesouros da Terra Santa" foram escolhidos por ajudarem a ilustrar relatos históricos conhecidos

RICARDO BONALUME NETO
DA REPORTAGEM LOCAL
– Folha de São Paulo, Ilustrada, em 12/08/2008.

Achados arqueológicos são fragmentos volúveis do passado, pois sua preservação depende muito do acaso. Materiais orgânicos, como ossos e madeira, são bem mais raros do que objetos resistentes à passagem do tempo e das estações climáticas, como cerâmica, mármore ou vidro. Mesmo esses materiais podem estar disponíveis apenas em pedaços que exigirão paciência e habilidade para serem remontados.

Isso ajuda a explicar o recorte feito na exposição "Tesouros da Terra Santa". A idéia original era mostrar apenas objetos da era de Jesus Cristo. No entanto, mesmo o mais importante museu israelense não teria objetos suficientes para uma mostra que não fosse limitada e repetitiva. Resta pouco da "cultura material" dos primórdios da era cristã.

Felizmente, o âmbito da exposição foi alargado para incluir um período mais extenso, o que permite ao visitante acompanhar tanto a evolução do judaísmo como sua convivência com a nova religião.

Objetos variados de culto religioso, da vida cotidiana e da administração do poder real e imperial mostram esse relacionamento complexo, mediado tanto por guerras como pelo cotidiano de comunidades dividindo o mesmo espaço.

Os objetos foram escolhidos por ajudarem a ilustrar relatos históricos conhecidos, estejam eles na bíblia judaico-cristã ou em textos como o do historiador judeu Flávio Josefo, que descreveu a destruição de Jerusalém pelos romanos no ano 70 d.C. Não chega a ser um problema grave da exposição, mas é preciso percorrê-la tendo isso em mente: trata-se de um conjunto de objetos agrupados de modo artificial. Em parte isso se deve por serem poucos e raros, mas principalmente porque se quer ilustrar uma história já conhecida.

Atrações
Há atrativos óbvios para o visitante interessado na vida de Jesus, como objetos de mesa que poderiam ter feito parte de uma "santa ceia". Mas são colocados fora do contexto arqueológico original e unidos agora de modo um tanto forçado para enfatizar a reverência religiosa.

Outro exemplo é um "meio shekel" de prata que cada homem adulto judeu deveria doar por ano ao templo. A moeda de prata foi colocada ao lado de exatas 128 outras de bronze, de modo a retratar o episódio bíblico em que Jesus se insurge contra os cambistas do templo.

Apesar dessa seleção artificial, alguns artefatos são ilustrativos por eles mesmos. É o caso de um menorá (candelabro de sete braços), objeto sagrado judaico, que inclui figuras de leões. Isso não seria permitido em tempos de religião mais estrita, mas serve para informar que naquele momento havia uma visão mais flexível do judaísmo e da convivência com os gentios (os não-judeus).

Outra boa justaposição de peças achadas em contextos distintos é particularmente representativa da convivência religiosa. São duas peças de mármore com decorações praticamente idênticas, com uma diferença básica - a que foi fabricada pelo artesão para a sinagoga tem um menorá no centro, enquanto a que foi entregue aos cristãos traz cruzes.

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