Nosso Blog é melhor visualizado no navegador Mozilla Firefox.

Pesquisar este blog

Carregando...

Total de visualizações de página

Google+ Followers

Perfil

Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

Translate

Seguidores

sábado, 24 de maio de 2008

Na tradição judaica - Águas: um encontro de texto e palavras

Evaristo Eduardo de Miranda1

Para a tradição judaica, das águas pode surgir um universo. No relato bíblico da criação (Gn 1), Deus cria os céus, a terra, a luz... Sua palavra não cria as águas. Para alguns místicos do judaísmo, elas já existiam. Precederam a criação. De onde surgiram? As águas não são mencionadas de forma explícita no Gênesis, conhecido como Bereshit11 pelos judeus. As águas são como pressupostas na obra da criação, refletindo as faces de Elohoim12.

O mundo criado, Deus mobiliza e usa as águas para fazer barro com o pó da terra e modelar o humano. Nobre propósito. Daí em diante, as águas seguirão sendo convocadas pelo divino e pelo humano ao longo de todo o texto bíblico. Das 664 citações ou empregos da palavra água na Bíblia, 591 ocorrem nas úmidas páginas do Primeiro Testamento. No Segundo Testamento são apenas 73 citações onde ocorrem episódios fortes, belos, poéticos, trágicos, cômicos, sinistros, românticos, miraculosos...

Nessas quase 600 citações do Primeiro Testamento estão, entre muitos episódios, o das águas brotando no deserto para salvar a escrava e concubina de Abrão, Agar e seu filho; as águas infinitas do dilúvio (mabul); as do orvalho, das chuvas e tempestades bíblicas; as águas dos rios (Mesopotâmicos, Yaboc, Jordão...) atravessadas por homens caminhantes e passantes (ivrim); as águas das emersões (Moisés no Nilo); das imersões (Jonas); as das transmutações (água transmutada em sangue, em amargura); as águas partidas e separadas como muralhas na travessia do Mar dos Limites (Yam Sof), do Mar Vermelho; as das nascentes, cisternas e poços (Berot, Ber Sheba, Jacó...), fontes de alegrias, namoros, guerras e disputas; as águas em gotas, copos, jarras, vasos e bebedouros; a águas das abluções cultuais e rituais (lavando pés, corpos, mãos, rostos, entranhas de animais, vestimentas etc.); as raras águas das secas decretadas por profetas... e tantas outras.

E as águas terrestres são, também, águas corporais. Depois da tragédia do jardim do Éden, o humano deverá ganhar o pão com as águas salgadas do suor da sua fronte, uma forma de santificação. A mais santa das águas será sempre fruto de dons pessoais e entregas corporais. Santificação, contaminação e imaculização, sempre possível e presente em todas secreções líquidas e humanas: saliva, esperma, sangue menstrual, lágrimas, urina e suor. Todas essas secreções estão mobilizadas pelo divino, pois vêm de uma única fonte de águas primordiais, origem da maleabilidade do barro humano.

Em hebraico, não existe a palavra água, no singular. Elas são sempre plural: águas, maim (mem-iud-mem), cuja pronúncia lembra, em português, a palavra mãe. Há algo de ambigüidade, de ambivalência, nessa pluralidade hídrica, nesse agá dois ó, nesse mem dois iud, como em todo envoltório materno. As águas matriciadoras, uterinas e misericordiosas (rahamim, rehemim em hebraico), essas fontes da vida, também matam, afogam, inundam e destroem. Podem ser fontes de morte. As águas de fontes murmurantes, límpidos regatos, orvalhos reluzentes, chuvas abençoadas e criadeiras, são as mesmas das tempestades, trombas d’água, inundações, nevascas, maremotos e tsunamis, aquelas vagas imensas produzidas por terremotos submarinos ou erupções vulcânicas.

Notas
1 Doutor em ecologia, pesquisador da Embrapa Monitoramento por Satélite
(mir@cnpm.embrapa.br).

11 Origem, início, começo, princípio, bereshit em hebraico, arké em grego, o arquétipo, nossa inserção. Bereshit é a primeira palavra do Tanach e também o nome do primeiro livro da Bíblia (Gênesis). É empregado substantivamente uma única vez na Bíblia. A riqueza desta palavra hebraica é demonstrada pelos milênios de exegese que ainda não esgotaram seus significados. Sua composição é a seguinte: Be = em; rosh = cabeça; it = desinência que dá um sentido abstrato à palavra. Réshit significa "começo, parte inicial, princípio". A palavra diz "Em princípio" e não "No princípio". A ausência de artigo indica um estado construído. Trata-se de uma palavra deliberadamente criada.
12 Primeiro nome divino escrito na Bíblia, o Deus dos hebreus, o criador dos céus e da terra, conhecido pelo nome próprio IHVH (Gn 2,4). O nome Elohim soa como um plural de El, designação semítica de Deus. Evoca um passado de politeísmo. É um paradoxo que o Deus único dos hebreus, seja designado na Bíblia com um nome plural, homônimo de deuses.

Nenhum comentário: