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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Doutora - Categoria: Associado III - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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domingo, 16 de março de 2008

"Jesus foi um grande homem de teatro", diz o escritor ateu Dario Fo

Rosana Torres
Em Milão
El País, em 15/03/2008.

Considerado um dos últimos trovadores, o Prêmio Nobel italiano demonstra aos 82 anos que não perdeu a capacidade de provocar, de fustigar os poderes políticos ou eclesiásticos e de criar através da palavra e da pintura.

Em seu site na Web (www.dariofo.it) há, antes de mais nada, um texto:"Figura destacada do teatro político que, na tradição dos trovadores medievais, fustigou o poder e restaurou a dignidade dos humildes". Dario Fo, nascido em 1926 em um pequeno povoado no norte da Itália, junto ao lago Maior, só quer ser visto assim. É preciso entrar em seu blog para saber outras coisas.

Prêmio Nobel em 1997, arquiteto, pintor prolífico, ativista político (nunca teve carteirinha), mobilizado na República de Salò, candidato à prefeitura de Milão por duas vezes, doutor pela Sorbonne, historiador da arte e, é claro, autor de teatro traduzido para vários idiomas e representado em todo o mundo. Suas obras foram em grande parte escritas junto com sua mulher desde 1951, a até agora senadora Franca Rame, atriz pertencente a uma saga de atores cujas origens remontam a 1600 e cujas atitudes políticas lhe custaram um seqüestro, com violação incluída, por parte de fascistas em 1973.

Os dois anciãos (ele com 82 anos, ela com 78) levam uma vida, em comum e em separado, marcada pela atividade frenética. A casa dos dois transmite isso. É um entra-e-sai de gente, tudo é alvoroço e trabalho, fotocópias, fax, palestras, gestões, telefonemas... Franca entra e sai do escritório de Fo, ao qual pergunta ou informa alguma coisa, e o mestre salta de um tema para outro com o virtuosismo de um comediante de variedades. Algumas frases servem para responder a Franca, outras para falar com as moças de sua equipe, e ao mesmo tempo responde à entrevista que, passado algum tempo, interrompe bruscamente para sair em velocidade de sua casa para ajudar um amigo. Franca o substitui e dá informações, incluindo a de que são bisavós.

No salão também há fotos, cartazes, quadros e os vícios do mestre. Suas peças especiais, sobretudo esculturas religiosas: uma Pietà, uma Virgem com o menino, um grande Cristo crucificado, um belíssimo São Sebastião (ele acredita que é igual ao de Mantegna), peças romanas...

Fo, que quase todos os anos visita a Espanha, atuará em abril em Córdoba, em agosto na Expo de Zaragoza com Juan Echanove e, possivelmente, na primavera em Madri (está negociando com Mario Gas).

Acaba de publicar na Itália "Gesù Amava le Donne" (editora Rizzoli) [Jesus amava as mulheres], continua editando estudos, a modo de aula-espetáculo sobre grandes pintores, e esta semana sai na Espanha "El mundo según Fo - Conversaciones con Giuseppina Manin" (editora Paidós), com tradução de sua biógrafa, Carla Matteini.

El País - A democracia formal atual em muitos países ocidentais, com sistemas de dois grandes partidos próximos entre si nas políticas reais, é um avanço para algo ou uma mera estabilização do poder?
Dario Fo - É a estabilização do poder e do sistema capitalista. O poder faz isso para não perder nunca. Na América há uma variante importante: os dois partidos têm regras que podem pôr em crise até o presidente. Aqui, por sua vez, tudo é ocultado, acaba se pactuando.

EP - O senhor continua pensando que as revoluções sempre começam bem e acabam mal?
Fo -
Basta olhar para a história. Penso no cristianismo, seus significados, seus objetivos... e olho para o papa. O que esse senhor tem a ver com o pensamento de Cristo? Se ele não faz nada! Nem ele nem seus cardeais; o clero é uma grande massa de poder, e Jesus só falou do poder do amor. Basta ver os bispos espanhóis pedindo o voto para a direita! Ainda por cima são politicamente reacionários. Exatamente o contrário de Cristo.

EP - Por que acredita que isso ocorra?
Fo - Foi devido a um fato que não se recorda. No século 3º, Constantino viu que o cristianismo adquiria importância. Como a religião pagã não resolvia os problemas, ofereceu ao cristianismo ser a religião do império e seus bispos ganharam o direito de não pagar impostos nem taxas de sucessão nem tributos, coisas que existiam na jurisdição romana. Tinham o poder do espírito e desde então o poder material, sem esquecer que ganharam propriedades em toda a Europa graças a um documento supostamente escrito por Constantino em seu leito de morte, que depois se demonstrou que era falso.

EP - O senhor está mais mergulhado que nunca na pintura, com seus livros de grandes gênios.
Fo - Meus pensamentos sempre passam pela pintura, quando encontro dificuldades pinto para resolvê-las, e todas as minhas pinturas são projetos para espetáculos...

EP - É um pintor emprestado ao teatro ou um "teatreiro" emprestado ao mundo das artes plásticas?
Fo - A verdade é que não sei. Desde pequeno comecei ao mesmo tempo a pintar e a contar histórias, porque também era um fabulista nato. A pintura me serve para analisar a realidade através do grotesco; se você contar uma história depois de estudá-la e analisá-la, transmite melhor o valor das coisas, sua importância ou sua falsidade.

EP - Como o senhor vê a situação política na Itália?

Fo - É totalmente desesperadora. Há uma classe política que não se preocupa com o problema que temos. Falo de agora, porque ficaram para trás os tempos em que tinham importância os movimentos operários, o Partido Comunista, o Socialista, os anarquistas, os liberais; foram tempos brilhantes no plano da expressão coletiva. Hoje todo o esforço se concentra em conseguir o poder, e não nas necessidades da população, a defesa dos direitos ou a reconquista daqueles momentos brilhantes de então. De vez em quando surge alguém que se irrita e tenta remover tudo, mas em geral só há uma grande desconfiança da classe política; inclusive à margem da direita, que é horrenda, basta ver tudo o que fizeram, como Berlusconi criou leis por sua conta, anulando regras existentes, usando a televisão para fazer sua propaganda, ao mesmo tempo que é um mentiroso, um hipócrita famoso, que apanharam 200 vezes soltando infâmias.

EP - E o papel da esquerda?

Fo - A esquerda na Itália não foi capaz de impor as leis civis ou anular algumas tão infames quanto a de que se pode mentir e lançar falsos testemunhos alegremente, já que ninguém o acusará. Sem falar nas leis sobre a propriedade, com os contribuintes que não pagam impostos porque podem chegar a acordos com o Estado para pagar o que lhes convém... Está ocorrendo a institucionalização da criminalidade.

EP - O senhor vê alguma metáfora no assunto do lixo de Nápoles?
Fo - Nos desastres é difícil ver metáforas. Isto é a degeneração de uma organização que deve ser civil. Vem de antes, quando Berlusconi em vez de organizar... É verdade que Nápoles é uma cidade de loucos com um sentido quase nulo da coletividade, sua história sempre foi assim. A grande loucura é que em Nápoles se faz a coleta de lixo diferenciada, mas os que retiram o lixo o atiravam todo junto no caminhão. E isso criou o caos. E por cima entrou a máfia para resolver o problema... é o caos da nave dos loucos.

EP - E torna a começar com outro período eleitoral?
Fo - O maior perigo é que devido a esse vazio haja uma rejeição ao voto que arraste os jovens, que não irão votar... e a abstenção é muito perigosa.

EP - E Veltroni, tentando unir a esquerda ao centro?
Fo - Não sei se é um lobo com pele de cordeiro. Fez uma série de coisas um tanto estranhas, que não estão agradando; basta ver como compôs seu partido, era de esquerda e o situou no centro, metendo no mesmo saco democratas-cristãos e comunistas e ao mesmo tempo eliminando opções intermediárias, como os socialistas, algum pequeno partido, outros colaterais, radicais...

EP - E tomando como modelo J. F. Kennedy.

Fo - Se alguém se situa no centro, fala nos líderes de centro. Hoje já não se fala em grandes homens da Revolução de Outubro ou de Marx; quem o fizer já perdeu de cara.

EP - O que o senhor fará se Berlusconi ganhar?
Fo - Não sei, não sei, não sei. Ficarei, seria infame que tivesse de ir embora, a não ser que surja uma repressão e eu tenha de fugir, uma tradição dos italianos, sobretudo nos 1900 e com o fascismo, como os espanhóis. Passamos momentos idênticos.

EP - Sendo o senhor um ateu convicto e confesso, não deixa de ser curiosa essa paixão, transformada em autêntica investigação, sobre Jesus Cristo, os Evangelhos, São Francisco, a Igreja?
Fo - Jesus foi um grande homem de teatro, de verbo incrível e grande sentido da organização das histórias que contava; planejava espacialmente seus discursos utilizando os declives do terreno, de maneira que falava sem forçar muito a voz para 5 mil ou 10 mil pessoas. Que sentido da cena!

EP - Com as técnicas usadas pelos gregos para seus teatros?
Fo - Exatamente. Ele enfrentava a necessidade de ter de improvisar, nem todos os que iam estavam de acordo, havia provocadores, e ele jamais os expulsava, tentava integrá-los. Parece que o fazia com circunstâncias em que não faltavam elementos cômicos e situações grotescas, tinha essa grande habilidade, como São Francisco, fazia discursos limados e polidos.

EP - Isso se depreende da leitura dos Evangelhos?
Fo - Nos Apócrifos se vê claramente que buscava diálogos, criava atmosferas, réplicas com seus discípulos... se intuem muitas coisas se forem lidos com atenção, e se descobre que aquilo só poderia funcionar se fosse encenado com atores e com situações coletivas e corais. Isso é teatro!

EP - Não havia improvisação?

Fo - Nada era deixado ao acaso. A mesma anedota era contada em lugares diferentes, como demonstram vários testemunhos, era um espetáculo em turnê; passou três anos em turnê em uma área geográfica enorme. Em teatro não se improvisa, é preciso respeitar algumas regras, e ele o fazia.

EP - Segundo suas palavras, o senhor e Franca Rame viveram 300 anos. Que planos têm para os próximos 300?
Fo - Continuar trabalhando todos os dias. Uma das piores coisas que podem acontecer a um homem é deixar-se abater pela idade, assumir que deve aceitar retirar-se com tranqüilidade e serenidade. Na Itália dizemos "andare in pensione". É o pior que pode acontecer, sair da vida.

EP - O senhor parece muito preocupado com o meio ambiente e fala em "apocalipse inconsciente".
Fo -
Estamos aí. O poder, através da desinformação, de seus próprios espetáculos, jornais, manifestações, atordoa as pessoas para que não pensem e não se preocupem com o que está acontecendo. Age como se estivéssemos em uma nave à deriva, o capitão aparece de vez em quando e diz, sorridente: "Não está acontecendo nada, este é o melhor dos mundos", como o Cândido de Voltaire. Mas enquanto isso encontramos mulheres maltratadas, crianças mortas, operários que caem no desemprego e o planeta agonizando.

EP - A solução?
Fo - Tudo passa pela conscientização, e lutar para que as pessoas saibam. Eu sempre acreditei que o melhor modo de informar as pessoas é envolvê-las com o humor, com o riso, é preciso rir de si mesmo, compreender que somos imbecis que nos deixamos manipular por quem dirige e manda.

EP - O poder também riria de si mesmo?
Fo - Não, o poder não sabe rir. Outro dia me disseram: "O homem sério é aquele que não sabe rir"; é o que não tem senso de humor, não compreende as ironias, as ocorrências, as piadas, o grotesco, não é sério porque seja honesto.

EP - Temos eleições na Espanha. Algo a dizer?
Fo - Diga-me você. Rodríguez Zapatero também se enganou algumas vezes, mas produziu outro clima na Espanha... é uma população feliz, sobretudo em relação à Itália, que agora está decadente em conseqüência de uma política incrível.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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