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Rio de Janeiro, RJ, Brazil
Cláudia Andréa Prata Ferreira é Professora Titular de Literaturas Hebraica e Judaica e Cultura Judaica - do Setor de Língua e Literatura Hebraicas do Departamento de Letras Orientais e Eslavas da Faculdade de Letras da UFRJ.

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sábado, 12 de setembro de 2009

Literatura: lugar de narrar Deus. ''Viva o povo brasileiro'' de João Ubaldo Ribeiro.Entrevista especial com Geraldo De Mori

IHU (12/09/2009)

  • Literatura: lugar de narrar Deus. ''Viva o povo brasileiro'' de João Ubaldo Ribeiro.Entrevista especial com Geraldo De Mori: “A literatura é um campo profícuo para falar de Deus porque tem a liberdade criativa e criadora, não se contentando em traduzir a realidade tal qual ela é dada, mas inventando novas formas de expressá-la e habitá-la. Por isso ela é lugar do sentido”. A opinião é do teólogo jesuíta Geraldo De Mori, na entrevista a seguir, concedida, por e-mail, à IHU On-Line. Analisando a obra Viva o povo brasileiro, escrita por João Ubaldo Ribeiro, ele localiza a formação da brasilidade na narração, apontando o papel “das divindades dos povos oprimidos, especialmente as das populações africanas, tornando ausente ou contranarrando o Deus cristão, associado à elite e à dominação”. Sobre a ausência ou silêncio do Deus cristão nessa narrativa, De Mori diz que ela pode ser compreendida “como uma opção do autor em escutar aqueles cujas vozes sempre foram caladas nos relatos oficiais da história de nosso país e em boa parte de nossa literatura”. Graduado em Filosofia e Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE, Geraldo De Mori é mestre e doutor em Teologia pelo Centre Sèvres, em Paris, França, com a tese Le temps: énigme des hommes, mystère de Dieu. Une poétique eucharistique du temps en contexte brésilien (Paris: Les Editions Du Cerf, ,2006). É um dos autores de Lavadeiras. Mulheres construindo um movimento (Salvador: Centro de Estudos e Ação Social, 1989). Em 16 de setembro ministrará o mini-curso Provocações para se "narrar Deus" a partir de Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, dentro da programação do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades. >>> Leia mais, clique aqui.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Saramago ataca Deus outra vez

Estadão, Caderno 2 (28/08/2009): Saramago ataca Deus outra vez: Depois de padecer de uma grave enfermidade respiratória que quase lhe custou a vida, o escritor português José Saramago comprova ter recuperado o fôlego e a disposição para a polêmica. Em outubro, ele lança seu novo romance, Caim, em que redime o personagem bíblico do assassinato do irmão Abel e credita a Deus a autoria intelectual do crime, ao depreciar o sacrifício que Caim Lhe havia oferecido. "Deus não é confiável. Que diabo de Deus é esse que, para enaltecer Abel, despreza Caim?", comentou Saramago, em entrevista divulgada ontem pela agência espanhola de notícias EFE. >>> Leia mais, clique aqui.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Falar ou calar sobre Deus? A relação linguagem-teologia

IHU (06/08/2009): Falar ou calar sobre Deus? A relação linguagem-teologia: "Sobre aquilo de que não se pode falar deve-se calar", disse Wittgenstein em seu "Tractatus". No prefácio, porém, dissera que "tudo aquilo que pode ser dito pode ser dito claramente". E quando esse "aquilo" é Deus? Como falar sobre Deus frente aos limites da linguagem? A partir do pensamento de Wittgenstein, o Prof. Dr. Luigi Perissinotto, da Universidade Ca' Foscari de Veneza, na Itália, irá contribuir com os debates do X Simpósio Internacional IHU: Narrar Deus numa sociedade pós-metafísica. Possibilidades e impossibilidades, que ocorre na Unisinos entre os dias 14 a 17 de setembro de 2009. Organizado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, o Simpósio conta com a parceria da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e do Escritório da Fundação Ética Mundial no Brasil. Perissinotto estará presente na Unisinos no dia 15 de setembro, para ministrar a conferência "As narrativas de Deus e as questões de linguagem a partir de Wittgenstein", das 14h30min às 16h30min. Formado em filosofia pela Universidade Ca' Foscari de Veneza, é doutor na mesma área pela Universidade Estatal de Milão. De 1992 a 2002, foi pesquisador e professor associado do Departamento de Filosofia e Teoria das Ciência Universidade Ca' Foscari de Veneza. Atualmente, é professor de Filosofia da Linguagem na mesma instituição. É também membro da Sociedade Filosófica Italiana e da Austrian Ludwig Wittgenstein Society, na Áustria. É redator da revista "Filosofia e Teologia".

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Deus brinca – e especialista da USP explica

IHU (05/08/2009): Deus brinca – e especialista da USP explica: Livro recém lançado homenageia o professor da Faculdade de Educação da USP, Jean Lauand (foto),que acaba de se aposentar. Especialista em Tomás de Aquino, o professor é autor da originalíssima tese do Logos ludens – aquela que afirma que há componentes racionais e lúdicos na Criação. O livro intitulado O Intérprete do Logos – Textos em homenagem a Jean Lauand, tem como organizador Roberto C. G. Castro – Editora da Escola Superior de Direito Constitucional. A reportagem é de Marcello Rollemberg e publicada pelo Jornal da Usp, 03-08-2009.

domingo, 5 de julho de 2009

As faces de Deus, segundo Saramago. Entrevista especial com Salma Ferraz

IHU (05/07/2009): As faces de Deus, segundo Saramago. Entrevista especial com Salma Ferraz: “Sua obra é uma catedral, ao longo da qual ele vai metodicamente desconstruindo a concepção judaico-cristã de um Deus justo e bondoso”, avalia a crítica literária e ensaísta Salma Ferraz, referindo-se à obra de José Saramago. Conhecido por questionar a existência de Deus, o escritor brasileiro é fascinado pelo tema e, segundo a autora, “apaixonado pela Teologia e pelos personagens bíblicos em geral”. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, Salma explica que tal admiração se justifica pelo fato do autor estar “imerso numa cultura que foi moldada pela ideia de Deus que está impregnada no DNA da civilização Ocidental”. E enfatiza: “Isto seduz Saramago e faz com que ele produza, a partir desta ideia, as melhores páginas da literatura universal contemporânea”. Salma Ferraz graduou-se em Letras, pela Faculdade Hebraico Brasileira Renascença de Letras, de São Paulo, e especializou-se em Literatura Brasileira e Literatura Infantil, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). É mestre e doutora em Literatura Portuguesa, pela Universidade Estadual Paulista (UNESP). Atualmente, é professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e atua no Programa de Pós-Graduação de Literatura com a linha de Pesquisa Teopoética - Os Estudos Comparados entre Teologia e Literatura. Entre seus livros, citamos O Quinto Evangelista (Brasília: UNB, 1998), As Faces de Deus na Obra de um Ateu (Juiz de Fora: UFJF, 2004) e No princípio era Deus e ele se fez Poesia (Acre: UFAC, 2008).

terça-feira, 7 de abril de 2009

'Inimigo número 1' de Deus na Bíblia vira vilão em filme de ficção científica

G1 (07/04/2009): 'Inimigo número 1' de Deus na Bíblia vira vilão em filme de ficção científica: O arqui-inimigo de Deus na Bíblia é o mais novo vilão da ficção científica -- e não estamos falando do Diabo. Uma produção do canal de TV a cabo Sci-Fi, que estreia nesta terça (7), às 23h, transformou o antigo deus cananeu Baal, cujo culto idolátrico seduzia os israelitas no Antigo Testamento, no pivô de sua trama.

domingo, 29 de março de 2009

Deus e a literatura latino-americana: a construção de uma identidade

Segue reportagem sobre a palestra do Professor Paulo Soethe, Narrativas de Deus na Literatura Latino-americana.


IHU (27/03/2009): Deus e a literatura latino-americana: a construção de uma identidade: a construção de uma identidade: Na literatura, Deus também é brasileiro. E passeia por toda a América Latina, provocando e sensibilizando novas narrativas entre os autores. Esse foi também o caminho que o Prof. Dr. Paulo Soethe percorreu em sua palestra "Narrativas de Deus na Literatura Latino-americana", na tarde desta quinta-feira, 26, como parte da programação da Páscoa IHU 2009.



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sábado, 21 de março de 2009

A fé que faz bem à saúde

Revista Época (21/03/2009): A fé que faz bem à saúde: Novos estudos científicos mostram que o nosso cérebro é “programado” para acreditar em Deus – e que isso nos ajuda a viver mais e melhor. Entenda por que.



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quarta-feira, 4 de março de 2009

O Deus do coração e o Deus do poder

IHU (04/03/2009): O Deus do coração e o Deus do poder: A politóloga Nadia Urbinati, especialista em pensamento liberal e socialista, escreveu artigo para o jornal La Repubblica, 02-03-2009, afirma que "defender o Estado laico [...] é [...] um dever que os cidadãos religiosos deveriam ter no coração". Doutora pelo Instituto Universitário Europeu de Florença e professora nas universidades de Nova Iorque, Pennsylvania, Princeton e agora em Columbia, Nadia defende que "o crente religioso e o cidadão têm aqui o mesmo interesse: o de ter políticos que não tornem a vida um objeto de compromisso político". A tradução é de Moisés Sbardelotto. >>> Leia mais, clique aqui.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

A la buena de Dios

El Pais, Cultura – Fernando Savater (17/02/2009): A la buena de Dios: Es para no creerse lo que aún sigue dando Dios que hablar. Ahora que ya ha vuelto a sus lares el cardenal Bertone (quien por cierto tiene un aire al malvado mago Sokhura que interpretó genialmente Torin Thatcher en Simbad y la princesa) y que nuestras piadosas autoridades se han sacudido de la ropa el olor a incienso, quizá podamos hablar con franqueza de los llamados "autobuses ateos" (?). Reconozco que me cuesta no simpatizar con cualquier iniciativa que escandaliza al obispado, pero en este caso el eslogan ("Probablemente Dios no existe. Despreocúpate y disfruta de la vida") me parece de una ingenuidad teológica propiamente... anglosajona, al estilo por un lado de Richard Dawkins y por el opuesto del poco añorado George W. Bush. >>> Leia mais, clique aqui.


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Publicações sobre Fundamentalismos

Conferencia Magistral: Cátedra UNESCO de Educación para la Paz: Entre el terror y la esperanza: Religión, guerra y paz

domingo, 20 de julho de 2008

Deus bíblico pode ser fusão de vários deuses pagãos, dizem especialistas

Personalidade e atributos de Javé são compartilhados com outras divindades do Oriente. Pai celestial El, jovem guerreiro Baal e até 'senhora' Asherah teriam sido influências.

Reinaldo José Lopes Do G1, em São Paulo, em 20/07/2008.

A afirmação pode soar desrespeitosa para judeus ou cristãos, mas não está muito longe da verdade: Javé, o Deus do Antigo Testamento, parece ter múltiplas personalidades. Para ser mais exato, especialistas que estudam os textos bíblicos, lêem antigas inscrições encontradas nos arredores de Israel ou escavam sítios arqueólogicos estão reconhecendo a influência conjunta de diversos deuses pagãos antigos no retrato de Javé traçado pela Bíblia.

A idéia não é demonstrar que o Deus bíblico não passa de mais um personagem da mitologia. Os pesquisadores querem apenas entender como elementos comuns à cultura do antigo Oriente Próximo, e principalmente da região onde hoje ficam o estado de Israel, os territórios palestinos, o Líbano e a Síria, contribuíram para as idéias que os antigos israelitas tinham sobre os seres divinos. As conclusões ainda são preliminares, mas há bons indícios de que Javé é uma fusão entre um deus idoso e paternal e um jovem deus guerreiro, com pitadas de outras divindades – uma delas do sexo feminino.

O ponto de partida dessas análises é o fundo cultural comum entre o antigo povo de Israel e seus vizinhos e adversários, os cananeus (moradores da terra de Canaã, como era chamada a região entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo em tempos antigos). A Bíblia retrata os israelitas como um povo quase totalmente distinto dos cananeus, mas os dados arqueólogicos revelam profundas semelhanças de língua, costumes e cultura material – a língua de Canaã, por exemplo, era só um dialeto um pouco diferente do hebraico bíblico.

Memórias de Ugarit
Os cananeus não deixaram para trás uma herança literária tão rica quanto a Bíblia. No entanto, poucos quilômetros ao norte de Canaã, na atual Síria, ficava a cidade-Estado de Ugarit, cuja língua e cultura eram praticamente idênticas às de seus primos do sul. Ugarit foi destruída por invasores bárbaros em 1200 a.C., mas os arqueólogos recuperaram numerosas inscrições da cidade, nas quais dá para entrever uma mitologia que apresenta semelhanças (e diferenças) impressionantes com as narrativas da Bíblia. “Por isso, Ugarit é uma parte importante do fundo cultural que, mais tarde, daria origem às tribos de Israel”, resume Christine Hayes, professora de estudos clássicos judaicos da Universidade Yale (EUA).

Uma das figuras mais proeminentes nesses textos é El – nome que quer dizer simplesmente “deus” nas antigas línguas da região, mas que também se refere a uma divindade específica, o patriarca, ou chefe de família, dos deuses. “Patriarca” é a palavra-chave: o El de Ugarit tem paralelos muito específicos com a figura de Deus durante o período patriarcal, retratado no livro do Gênesis e personificado pelos ancestrais dos israelitas: Abraão, Isaac e Jacó.

Nesses textos da Bíblia há, por exemplo, referências a El Shadday (literalmente “El da Montanha”, embora a expressão normalmente seja traduzida como “Deus Todo-Poderoso”), El Elyon (“Deus Altíssimo”) e El Olam (“Deus Eterno”). O curioso é que, na mitologia ugarítica, El também é imaginado vivendo no alto de uma montanha e visto como um ancião sábio, de vida eterna.

Tal como os patriarcas bíblicos, El é uma espécie de nômade, vivendo numa versão divina da tenda dos beduínos; e, mais importante ainda, El tem uma relação especial com os chefes dos clãs, tal como Abraão, Isaac e Jacó: eles os protege e lhes promete uma descendência numerosa. Ora, a maior parte do livro do Gênesis é o relato da amizade de Deus com os patriarcas israelitas, guiando suas migrações e fazendo a promessa solene de transformar a descendência deles num povo “mais numeroso que as estrelas do céu”.

Israel ou “Israías”?
Outros dados, mais circunstanciais, traçam outros elos entre o Deus do Gênesis e El: num dos trechos aparentemente mais antigos do livro bíblico, Deus é chamado pelo epíteto poético de “Touro de Jacó” (frase às vezes traduzida como “Poderoso de Jacó”), enquanto a mitologia ugarítica compara El freqüentemente a um touro. Finalmente, o próprio nome do povo escolhido – Israel, originalmente dado como alcunha ao patriarca Jacó – carrega o elemento “-el”, lembra Airton José da Silva, professor de Antigo Testamento do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto (SP).

“É o nome do deus cananeu, mais um indício de que Israel surge dentro de Canaã, por um processo gradual”, diz Silva. Ele argumenta que, se Javé fosse desde sempre a divindade dos israelitas, o nome desse povo seria “Israías”. Isso porque o elemento adaptado como “-ías” em português (algo como -yahu) era, em hebraico, uma forma contrata do nome “Javé”. Curiosamente, o elemento se torna dominante nos chamados nomes teofóricos (ligados a uma divindade) dados a israelitas no período da monarquia, a partir dos séculos 10 a.C. e 9 a.C.

E esse nome (provavelmente Yahweh em hebraico; a sonoridade original foi obscurecida pelo costume de não pronunciar a palavra por respeito) é um enigma e tanto. As tradições bíblicas são um tanto contraditórias, mas pelo menos uma fonte das Escrituras afirma que Javé só deu a conhecer seu verdadeiro nome aos israelitas quando convocou Moisés para ser seu profeta e arrancar os descendentes de Jacó da escravidão no Egito. (A Moisés, Deus diz que apareceu a Abraão, Isaac e Jacó como “El Shadday”.) O problema é que ninguém sabe qual a origem de Javé, o qual nunca parece ter sido uma divindade cananéia, exatamente como diz o autor bíblico.

Senhor do deserto
A esmagadora maioria dos arqueólogos e historiadores modernos não coloca suas fichas no Êxodo maciço de 600 mil israelitas (sem contar mulheres e crianças) do Egito, por dois motivos: a semelhança entre Israel e os cananeus e a falta de qualquer indício direto da fuga. Mas muitos supõem que um pequeno componente dos grupos que se juntaram para formar a nação israelita tenha sido formado por adoradores de Javé, que acabaram popularizando o culto. Quem seriam esses primeiros javistas? Uma pista pode vir de alguns documentos egípcios, que os chamam de Shasu – algo como “nômades” ou “beduínos”.

“Duas ou três inscrições egípcias mencionam um lugar chamado 'Yhwh dos Shasu', o que, para alguns especialistas, parece ser 'Javé dos Shasu'. Talvez sim, talvez não. Não temos como saber ao certo”, diz Mark S. Smith, pesquisador da Universidade de Nova York e autor do livro “The Early History of God” (“A História Antiga de Deus”, ainda sem tradução para o português).

“É menos provável que o culto a Javé venha de dentro da Palestina e da Síria, e um pouco mais plausível que ele tenha se originado em certas regiões da Arábia”, diz Airton da Silva. Mark Smith lembra que algumas das passagens poéticas consideradas as mais antigas da Bíblia – nos livros dos Juízes e nos Salmos, por exemplo – referem-se ao “lar” de Javé em locais denominados “Teiman” ou “Paran”. Aparentemente, são áreas desérticas, apropriadas para a vida de nomadismo. “Muitos especialistas localizam essa região no que seria o noroeste da atual Arábia Saudita, ao sul da antiga Judá [parte mais meridional dos territórios israelitas]”, diz Smith.

Guerreiro divino
Seja como for, quando Javé entra em cena com seu “nome oficial” durante o Êxodo bíblico, a impressão que se tem é que ele já absorveu boa parte das características de um outro deus cananeu: Baal (literalmente “senhor”, “mestre” e, em certos contextos, até “marido”), um guerreiro jovem e impetuoso que acabou assumindo, na mitologia de Ugarit e da Fenícia (atual Líbano), o papel de comando que era de El.

Indícios dessa nova “personalidade” de Deus surgem no fato de que, pela primeira vez na narrativa bíblica, Javé é visto como um guerreiro, destruindo os “carros de guerra e cavaleiros” do Faraó e, mais tarde, guiando as tribos de Israel à vitória durante a conquista da terra de Canaã. Tal como Baal, Javé é descrita como “cavalgando as nuvens” e “trovejando”. E, mais importante ainda, uma série de textos bíblicos falam de Deus impondo sua vontade contra os mares impetuosos (como no caso do Mar Vermelho, em que as águas engolem o exército egípcio por ordem divina) ou derrotando monstros marinhos.

Há aí uma série de semelhanças com a mitologia cananéia sobre Baal, o qual derrotou em combate o deus-monstro marinho Yamm (o nome quer dizer simplesmente “mar” em hebraico) ou “o Rio” personificado. Na mitologia do Oriente Próximo, as águas marinhas eram vistas como símbolos do caos primitivo, e por isso tinham de ser derrotadas e domadas pelos deuses.

Javé também é associado à chuva e à fertilidade da terra pelos antigos autores bíblicos – atributos que aparecem entre as funções de Baal. Há, porém, uma diferença importante entre os dois deuses: outra narrativa de Ugarit fala do assassinato de Baal pelas mãos de Mot, o deus da morte, e da ressurreição do jovem guerreiro – provavelmente uma representação mítica do ciclo das estações do ano, essencial para a agricultura, já que Baal era um deus que abençoava a lavoura.

O lado guerreiro de Javé é talvez o mais difícil de aceitar para a sensibilidade moderna: quando os israelitas realizam a conquista da terra de Canaã, a ordem dada por Deus é de simplesmente exterminar todos os habitantes, e às vezes até os animais (embora, em alguns casos, os homens de Israel recebam permissão para transformar as mulheres do inimigo em concubinas).

Textos de outra nação da área, os moabitas (habitantes de Moab, a leste do Jordão) ajudam a lançar luz sobre esse costume aparentemente bárbaro. Um monumento de pedra conhecido como a estela de Mesa (nome de um rei de Moab em meados do século 9 a.C.) fala, ironicamente, de uma guerra de Mesa com Israel na qual o rei moabita, por ordem de seu deus, Chemosh, decreta o herem, ou “interdito”. E o herem nada mais é que a execução de todos os prisioneiros inimigos como um ato sagrado. Tratava-se, portanto, de um elemento cultural de toda a região.

Lado feminino
Se a “múltipla personalidade” de Javé pode ser basicamente descrita como uma combinação de El e Baal, há uma influência mais sutil, mas também perceptível, de um elemento feminino: a deusa da fertilidade Asherah, originalmente a esposa de Baal na mitologia cananéia. Normalmente, Deus se comporta de forma masculina na Bíblia, e a linguagem utilizada para falar de sua relação com os israelitas é, muitas vezes, a de um marido (Deus) e a esposa (o povo de Israel). Mas o livro bíblico dos Provérbios, bem como alguns outras fontes israelitas, apresenta a figura da Sabedoria personificada, uma espécie de “auxiliar” ou “primeira criatura” de Deus que o teria auxiliado na obra da criação do mundo.

Segundo o texto dos Provérbios, Deus “se deleita” com a Sabedoria e a usa para inspirar atos sábios nos seres humanos. Para muitos pesquisadores, a figura da Sabedoria incorpora aspectos da antiga Asherah na maneira como os antigos israelitas viam Deus, criando uma espécie de tensão: embora o próprio Deus não seja descrito como feminino, haveria uma complementaridade entre ele e sua principal auxiliar.


domingo, 8 de junho de 2008

Deus bíblico pode ter tido uma esposa, afirmam pesquisadores

Inscrições indicariam que Javé teria tido como companheira a deusa da fertilidade Asherah.

Tese é polêmica; outros especialistas dizem que Deus só 'absorveu' atributos da deusa.

Reinaldo José Lopes Do G1, em São Paulo, em 08/06/2008.

Será que uma deusa pagã, atacada na Bíblia como uma das maiores inimigas do culto ao Deus verdadeiro, poderia ser, na verdade, a esposa Dele? De forma bastante simplificada, esse é um dos principais debates que dividem os historiadores da religião do antigo Israel nos últimos tempos. Inscrições misteriosas, pequenas estatuetas de cerâmica e o próprio texto da Bíblia indicariam que a deusa em questão, conhecida como Asherah, não teria sido adorada como rival de Javé, o Deus judaico-cristão, mas sim como sua companheira.

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Isso, é claro, para um dos lados do debate. Para outros pesquisadores, os símbolos da deusa Asherah (cujo nome às vezes é aportuguesado como "Asserá") teriam sido simplesmente "incorporados" pelo culto de Javé, sem que a deusa fosse adorada como entidade distinta pelos antigos israelitas. A ambigüidade é, em parte, lingüística: embora Asherah fosse o nome de uma deusa dos cananeus (habitantes pagãos da Palestina), a palavra também é um substantivo comum, "asherah", que designa um poste de madeira usado para cerimônias religiosas.

"As posições estão bem marcadas: uns acreditam que se trata de um símbolo cúltico, outros já assumem que se trata de uma deusa. No entanto, uma coisa não necessariamente exclui a outra, porque o poste também simbolizava a deusa, de forma que uma referência a ele sugere o culto a Asherah", diz Osvaldo Luiz Ribeiro, doutorando em teologia bíblica da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

Menções numerosas
"Na Bíblia hebraica existem mais de 40 referências a Asherah e ao seu símbolo, inclusive demonstrando a sua presença dentro do Templo de Jerusalém, o Templo de Javé", conta Ana Luisa Alves Cordeiro, mestranda em ciências da religião na Universidade Católica de Goiás. Nessas referências, a deusa é sempre retratada como uma influência religiosa negativa dos povos vizinhos sobre os israelitas, competindo com o culto do verdadeiro Deus. Cordeiro está estudando o impacto da reforma religiosa liderada por Josias, rei de Judá (o reino israelita do sul), por volta do ano 620 a.C., na qual o símbolo da deusa teria sido arrancado do Templo e queimado.

No entanto, o culto a Asherah parece ter sido mais importante fora de Jerusalém, nos chamados "lugares altos", afirma a pesquisadora. Em tais locais, o poste de madeira era substituído por árvores vivas como símbolo da deusa. "Eram santuários ao ar livre, nos topos das montanhas. Isso evidencia uma profunda ligação com a natureza", diz Cordeiro. O culto a Asherah seria uma forma de reverenciar a fertilidade feminina e o papel da mulher como doadora ou mantenedora da vida. "E a árvore é o símbolo dessa abundância", avalia a pesquisadora.

Durante muito tempo, esse tipo de culto foi considerado uma influência religiosa estrangeira sobre o povo de Israel, conforme o que dizia a Bíblia. Mas o consenso atual é que os israelitas não tiveram uma origem separada dos cananeus, seus vizinhos pagãos. A maior parte dos habitantes de Judá e Israel (nome um tanto confuso do reino israelita do norte) parecem ter sido um grupo de origem majoritariamente cananéia que foi assumindo uma entidade cultural distinta aos poucos. E, entre os cananeus, Asherah era a esposa de El, o soberano dos deuses -- mais ou menos como Zeus, na mitologia grega, tinha sua mulher divina, a deusa Hera.

Evidência direta?
É aqui que a arqueologia traz dados surpreendentes sobre a questão. O sítio arqueológico mais importante para o debate sobre Asherah talvez seja o de Kuntillet Ajrud, localizado no Sinai egípcio, perto da fronteira com Israel. O lugar parece ter sido uma espécie de "pit stop" de caravanas no deserto, e também ter abrigado um antigo santuário.

Inscrições e desenhos em fragmentos de cerâmica de Kuntillet Ajrud revelam frases, datadas em torno do ano 800 a.C., pedindo a benção de "Javé de Samaria [capital do reino israelita do norte] e sua Asherah" e "Javé de Teiman e sua Asherah". No caso da primeira frase, há um desenho estranhíssimo de duas figuras com corpo humano e cabeça que lembra a de bovinos, uma delas com traços mais masculinos e outra com traços mais femininos. Será que era assim que alguns dos antigos israelitas imaginavam Javé e sua esposa Asherah?

"Temos outros dados que indicam a associação de Javé com a figura do touro, representando a força, o poder, principalmente no culto de Samaria", afirma Osvaldo Ribeiro, da PUC-RJ. Outros pesquisadores, como Mark S. Smith, da Universidade de Nova York, contestam a associação de Javé com uma consorte chamada Asherah nessas inscrições. Para eles, a gramática do hebraico é esquisita: o termo "sua Asherah" parece se referir a um objeto, não a uma pessoa ou a uma deusa.

"Eu acho complicado tirar uma conclusão como essa simplesmente com base no que sabemos do hebraico bíblico, porque se trata de uma língua morta. Nunca vamos ter certeza se realmente era impossível usar o pronome em 'sua Asherah' para se referir a uma pessoa", diz Ribeiro. De qualquer maneira, afirma o pesquisador, há outro dado arqueológico importante: inúmeras estatuetas de cerâmica, encontradas em todo o território israelita e com idades que abrangem centenas de anos, que parecem indicar uma deusa da fertilidade, com barriga de grávida e seios protuberantes. "Essas imagens continuam sendo comuns até o século 6 a.C., quando Jerusalém é destruída e parte de seus habitantes são exilados na Babilônia", lembra ele.

Pós-exílio
Se o culto a Asherah era tão comum quando esses indícios esparsos indicam, o que teria levado ao fim dele? A Bíblia explica o processo como uma contaminação constante da religião de Israel pelos povos pagãos, a qual nem muitas reformas religiosas purificadoras, como a do rei Josias, foram capazes de apagar antes do exílio na Babilônia.

Ribeiro, no entanto, diz acreditar que muitas dessas histórias de reforma foram projeções dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, elaboradas na época depois do exílio. "A comunidade dos que voltam da Babilônia se organiza em torno do Templo de Jerusalém, sob a liderança dos sacerdotes e com o apoio do Império Persa [que dominou a região depois de vencer a Babilônia]. Então, toda ameaça a esse processo de centralização do poder sacerdotal foi combatida, de forma que só acabou sobrando o culto a Javé. Foi um acidente histórico, num momento crítico, que acabou se tornando a visão dominante."

Já para Ana Luisa Cordeiro, da Universidade Católica de Goiás, os eventos antigos têm implicações para a própria visão excessivamente masculina de Deus que acabou se tornando dominante entre judeus e cristãos. Não é que a sociedade na qual Asherah era adorada fosse necessariamente igualitária entre homens e mulheres, pondera ela, mas pelo menos abria espaço para enxergar o sagrado com um lado feminino.

"Reimaginar o sagrado como Deusa é reimaginar as relações de poder, não numa tentativa de apagar a presença de Deus, mas sim de dar espaço ao feminino no sagrado, o feminino não como um atributo do Deus masculino, mas como Deusa", avalia Cordeiro.

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